BIOGRAFIAS E LINHAGENS SECULARES

 

 

   
   
  CARNEIRO DA FONTOURA
  Na gesta dos padrões Ideológicos, Políticos e Sociais do
  Brasil Meridional
   
REMINISCÊNCIAS    

 

      
BIOGRAFIAS E LINHAGENS SECULARES     
      
1 – BIOGRAFIAS   
Qual lebrel, o obstinado contendor dos opressores, atrelado, repousa à sombra da amoreira, que lhe dá abrigo, porém, atilado aos acontecimentos, que jacentes ainda fustigam a paz conquistada.
 Alencastro Carneiro da Fontoura   
Alexandre José de Queiroz e Vasconcelos – O Quebra   
Antônio Manoel Corrêa da Câmara – Sargtº-Mor   
Antônio Paulo da Fontoura   
Antônio Vicente da Fontoura   
Francisco Barreto Pereira Pinto  
Bento José Corrêa Câmara – Ten.Gen.   
Francisco Pinto da Fontoura   
João de Deus Menna Barreto   
João Manoel Menna Barreto   
João Neves da Fontoura   
João Simões Lopes Filho – Visc. Graça   
José Carneiro da Fontoura   
José Saldanha   
 Oscar Carneiro da Fontoura   
Patrício José Corrêa Câmara   
Sebastião Barreto Pereira Pinto   
    
    
      
ALENCASTRO CARNEIRO DA FONTOURA    
     
Alencastro filho de Alexandre Carneiro da Fontoura*1 e de Izidra Carolina Barros (sua primeira esposa), nasceu em Dom Pedrito. Descendente em 5ª geração de JCF, através de José Carneiro da Fontoura e de Pedro José e seus descendentes. Este se assentou nas imediações de São Sebastião, nos avançados campos de Bagé, que para aí foi no ano de 1807. Alencastro foi casado com Maria Francisca Oliveira de Macedo, tendo o casal 5 filhos.   *1   Alexandre, republicano, assumiu a Intendência de D. Pedrito em 1890, em oposição aos Liberais e Conservadores ortodoxos, por decisão de Júlio de Castilhos, logo após a Proclamação da República. Foi casado em segundas núpcias com Francisca Lopes Formoso, daí resultando 1 filho Oscar Carneiro da Fontoura, também com sinopse biográfica
Desenvolveu atividades militares e na política, sendo eleito deputado à Constituinte de 1891. Talvez, sua maior contribuição para a sociedade seja a implantação, em Dom Pedrito, de um asilo e de uma creche que levam, respectivamente, o seu nome e o de sua esposa. Em sua memória, a Cidade também denominou a rua por onde se localiza o asilo de Maj. Alencastro Carneiro da Fontoura.
Consta ter falecido ao receber a notícia de sua promoção a Major.
   
     
     
ALEXANDRE JOSÉ DE QUEIROZ E VASCONCELOS*1   *1              Reprodução no Correio do Povo, de 01-03-80, artigo Os Flores da Cunha, de Aurélio Porto, de trabalho publicado no anuário Geográfico Brasileiro, Ano IV, 1942, São Paulo, p 337-350.
ALEXANDRE LUIZ DE QUEIROZ E VASCONCELOS  
 – O QUEBRA  
   
 “Entre os quinze filhos de Francisco Barreto encontramos Maria Eulália Pereira Pinto que casou, no Rio Pardo, com o tenente de dragões Alexandre Luiz de Queiroz e Vasconcelos, nobre senhor das casas de Queiroz e de Amarante, de comprovada fidalguia e incomparável bravura.    
 “Foi o tenente Alexandre Luiz de Queiroz homem de cultura, grandes aptidões militares que lhe valeram ser, no Rio Pardo, um dos republicanos da governança. Teve campos de criação na Cachoeira, sendo o primeiro sesmeiro do Quartel-mestre, em parte do qual está hoje edificada esta cidade. Morreu em 1790 deixando onze filhos dentre os quais destacaremos Alexandre Luiz, o Quebra de alcunha, e Maria do Carmo Violante.    
 “Alexandre Luiz, o filho, é um tipo singular na história do Rio Grande. Seria talvez se outras fossem as condições do meio o único caudilho gaúcho, na lata acepção do termo. Soldado de dragões, no Rio Pardo, muito moço ainda, atacado por um contrabandista, mata-o a golpes de espada. Para evitar o castigo que o espera, deserta. Vai para a Banda Oriental. Aí tem contato íntimo com essa admirável organização caudilhesca de secretário da liberdade que é Artigas. Influencia-lhe profundamente o caráter a dialética oriental. E torna-se um insubmisso, homem livre, no pampa livre. Nem Deus, Nem Rei. Como se processa nesse caráter altivo a transformação radical, nesses tempos obscuros da nossa história, impossível dizê-lo.    
 “Em 1801, declara guerra à Espanha, é um dos desertores heróicos que, com outro, José Borges do Canto, conquista em poucos dias as Missões. Indultado, volta como furriel à sua companhia no Regimento de Dragões. Mas por pouco tempo. Um alto objetivo norteia-lhe os passos. Será o precursor da liberdade, o vanguardeiro da idéia nova que, trinta e cinco anos mais tarde, tingirá de sangue as cochilas gaúchas. No mesmo ano, voltando de Missões, congrega alguns companheiros e vai à guarda de S. Francisco, tentando ali revoltar a guarnição.    
 “Fala em república, em liberdade, em coisas inacreditáveis para a época. Quer ligar o Rio Grande ao Uruguai por laços federativos. Uma pátria sem rei.    
 “Perseguem-no. Alguns escravos a que prometia a liberdade o seguem. Dominado, depois de larga resistência, é preso, posto a ferros.    
“Seus parentes, poderosos no tempo, Barreto Pereira Pinto e principalmente seu tio Corrêa da Câmara, o primeiro Visconde de Pelotas, que entrara na família, conseguem um atenuante para o crime: é oficialmente considerado louco, `mente insana’ dizem os documentos da época. E assim, passa trinta anos no cenário que irá assistir aos seus feitos heróicos.    
 “Anos depois, nas campanhas de 16 a 20, vemo-lo tenente, capitão, sargento-mor de milícias, no Regimento Entre-Rios, sendo a maior lança do corpo de guerrilhas que comanda. Pelo destemor, pela bravura, pelo desapego à vida, é formidável, às vezes. Seu nome, com a legenda dos maiores heroísmos de que é capaz um homem, se repete em todas as páginas escritas sobre aquelas campanhas. Tem no combate todas as durezas mas, vencedor é magnânimo. Alexandre Luiz destaca-se singularmente em ações onde todos são denodados e admiráveis. Seu nome infunde respeito ao inimigo e passa à história aureolado pela bravura.    
“Em 1820, o Quebra vai à Cachoeira. Procede a fama de seus feitos. Entra em confabulações com as autoridades. Quer fazer uma grande revolução, libertar os escravos, proclamar a República do Rio Grande, unindo-o ao Uruguai.    
“Gente simples, timorata, todos o recebem com pavor. cercado de alguns escravos, investe contra a cadeia, toma-a sem grande resistência. Manda tocar à degola nas caixas de guerra. Mas, não mata ninguém… Arroga a si poderes de ditador. A seu liberto, Pedro, companheiro de todos os tempos, dá o posto de comandante da Vila. Vai à casa do comandante deposto, veste o negro com fardão, põe-lhe à cabeça o tricorne e na mão o bastão daquela autoridade e fá-lo passear pelas ruas, como símbolo de igualdade…    
“Perseguido de novo, preso, acorrentado, é remetido para a sede da Capitania com um ofício de Corrêa da Câmara dizendo ser o seu parente louco varrido, `mente insana’.    
 “No Rio, para onde é mandado com recomendações especiais, consegue, como maçom, interessar a D. Pedro I. E volta para o sul, indultado. Comete novas tropelias tendo por idéia fixa a liberdade dos escravos, a república, a separação do Rio Grande.    
 “Em 27, quando da batalha do Passo do Rosário, apresenta-se a Alvear que o faz coronel de um suposto regimento de Libertadores do Rio Grande. E combate contra os brasileiros. Historiadores há que o apontam de traidor…    
“Em 1830, em outro acesso de loucura pela liberdade, apresenta-se um dia em Caçapava, vilarejo pacato, ponto estratégico principal do Rio Grande. Dirige-se aos escravos. Grande número deles ouve as sedutoras promessas de Quebra. Fala-lhes em nome de princípios humanos, república, liberdade, igualdade, fraternidade. Esboça-se a rebelião.    
 “Atônitas, as autoridades fogem do povoado. Uma partida forte de dragões, mandada da Cachoeira, começa a persegui-lo. Anda pelos matos. Com seu indefectível Pedro, heróico companheiro de lutas, atravessa o Rio Grande, rumo ao Uruguai.    
“Morre em 1833. Predecessor admirável dos farrapos, não chegou a ver, tremulando, nos ângulos do Continente, o `pavilhão tricolor’. Passou à lenda como traidor e louco. A mentalidade do tempo, a história um dia far-lhe-á justiça.”    
     
     
ANTÔNIO MANOEL CORRÊA DA CÂMARA – SARGº.-MOR    
     
Antônio Manoel nasceu em 1783, na nova vila de Rio Pardo, um importante posto militar, então chefiado por seu pai, que os luso-brasileiros fundaram para enfrentar os castelhanos. Um dos bisnetos de JCF, através de sua sexta filha, Angélica. Filho de Patrício José Corrêa Câmara, 1º Visconde de Pelotas e de Joaquina Leocádia da Fontoura.    
Estudou em Lisboa, no Colégio dos Nobres, um estabelecimento padrão e muito procurado por gente das colônias lusas de além-mar. Concluindo seus estudos, viaja pela Europa e também para a Índia. homem de elevada cultura.    
Dante Laytano informa, ainda, que Antônio Manoel retornou ao Brasil, em 1822, logo se associando ao movimento da independência. Foi ocupar o cargo de Cônsul do Brasil em Buenos Aires, depois foi para o Paraguai em iguais funções, retornando em 1829. Na Epopéia Farroupilha, abraça a causa revolucionária. Chefiou os serviços de Estatística no Rio Grande do Sul. Viveu seus 65 anos, solteiro, levando uma vida orientada para o intelectual. Em 30 de junho de 1848, na cidade do Rio de Janeiro é encontrado morto.    
     
     
ANTÔNIO PAULO DA FONTOURA    
     
Antônio Paulo, conhecido por Paulino da Fontoura, nasceu no ano de 1800 e faleceu assassinado em Alegrete*1 aos 43 anos, solteiro. Filho de Antônio Pinto da Fontoura e de Eufrazia Luiza de Lima, sua segunda esposa. Foram 8 os filhos de Antônio Pinto da Fontoura, sendo 4 do segundo matrimônio. Paulino da Fontoura corresponde a terceira geração de JCF, através de sua 6ª filha, Angélica. Paulino era irmão de Francisco Pinto da Fontoura*2.   *1   Sobre o assassinato de Paulino, Alfredo Varela, citado por Dante Laytano, em História da República Rio-Grandense, diz “O ciúme armou o braço de um marido incomplacente e o escritor enamorado pagou, a 13 de fevereiro, com a vida, as flores que até então colhera, sem risco ou enfado algum”.
*2   Francisco, o Poeta dos Farrapos, autor do Hino Farroupilha. (Vide sinopse Biográfica).
Eleito suplente à Constituinte Farrapa e quando assassinado era, também, Vice-Presidente da República Rio-Grandense. Além da política, corria-lhe fácil a inspiração poética. Feito revolucionário de primeira hora, representava junto com Vicente da Fontoura, Onofre Pires, Lucas de Oliveira, entre outros, uma espécie de oposição. Defendiam que ante tão desgastante luta e já tendo parcialmente alertado aos donos do Poder Imperial, com sua política fiscal escorchante, espoliativa, que já era chegado o momento de estabelecer uma tática para uma paz honrosa.    
   
   
   
     
     
ANTÔNIO VICENTE DA FONTOURA    
     
Nascido em 16 de junho*1 e batizado a 12 de julho de 1807, em Rio Pardo e falecido em Cachoeira do Sul, a 20 de outubro de 1860, vítima de ferimentos recebidos na estúpida agressão de 8 de setembro, pelo escravo liberto Manoel Pequeno, a mando de adversários políticos. Filho de Eusébio Manoel Antônio, natural de Lisboa, e de Vicência Cândida da Fontoura, natural de Rio Pardo, que foi neta materna de JCF, através de Jerônima Veloza da Fontoura.   *1   Esta data é revelada no Estudo Genealógico de J G Felizardo, e deve corresponder aos assentamentos pesquisados, porém o próprio Vicente da Fontoura no Prólogo que redigiu para seu Diário, diz ter nascido em 8 de janeiro de 1807.
Vicente da Fontoura casou em Cachoeira do Sul, com Clarinda Francisca Porto, filha do Ten. José Gomes Porto e de Luísa Francisca de Almeida. Consta que seus filhos foram 14. Entre sua numerosa descendência arrola-se a família Fontoura Xavier. Quanto aos locais em que mais se encontram seus descendentes, embora as informações não sejam completas, anotam-se Cachoeira, Porto Alegre e Rio de Janeiro.    
Em Dante Laytano*2 encontra-se uma concisa biografia deste ilustre ativista da causa Farroupilha. “Comerciante, homem público e militar, guardou a honradez como seu traço predominante. Homem de posses. Vereador duas vezes, Procurador Fiscal, Juiz de Paz, Juiz Superior em Cachoeira, onde exerceu toda a sua atividade desde jovem. No Exército Revolucionário, foi major de Legião. Eleito deputado à Constituinte da República. Ministro da Fazenda, teve uma ação brilhantíssima, salvando a Revolução da ruína e resguardando os cofres públicos. Seu maior papel em 35 foi o de embaixador da paz.”   *2   História da República Rio-Grandense, Ed. Sulina, 1983.
Como tribuno, no ardor dos polêmicos pronunciamentos, ao lado de Paulino da Fontoura*3, na Assembléia da efêmera República, chamava à reflexão os revolucionários. Um ambiente de ecléticos oradores. Representavam os Fontoura além de Martins Coelho, Lucas de Oliveira, Onofre Pires, uma “oposição” a Domingos de Almeida, Serafim Alencastre, Sebastião Menna Barreto, Mariano de Matos entre outros. Essa oposição, mais resultado de uma postura consciente, do que levada pela animosidade vivida nos tensos dias da Revolução – soube ele antever precocemente os destinos da revolução –  talvez lhe tenha valido dissabores e incompreensões de seus comparsas.   *3   Antonio Paulo da Fontoura – Paulino da Fontoura – faleceu assassinado em Alegrete, quando Vice-Presidente da República Rio-Grandense, 1843; era seu parente em 6º grau. (Vide sinopse biográfica).
Segundo o Diário de Antônio Vicente da Fontoura*4, abrangendo o período de 1º de janeiro de 1844 a 22 de março de 1845, com notas de Alfredo Ferreira Rodrigues, pode-se penetrar mais profundamente em seu caráter. Comenta o ensaísta:   *4    Diário de Vicente da Fontoura, Editoras EDUCS, Sulina e Martins, 1984, p.10, 11 e 14.
      “Aqui e ali, esparsas, há frases que descrevem bem ao vivo uma situação que desempenha, vigorosamente um caráter numa observação cheia de argúcia, ou que revelam as preocupações de ordem moral e social que lhe enchiam as horas de meditação sobre a desgraça da pátria.            Além desse Diário, legou-nos Vivente da Fontoura uma valiosa Memória, escrita, ao que parece, logo após o combate do Passo do Rosário, a qual foi publicada na Revista do IHGRGS, IV trimestre de 1928.
 Uma biografia mais ampla sua é escrita por De Paranhos Antunes, 1933, Ed. Livraria do Globo, 1933 sob o título, Antônio Vicente da Fontoura – O Embaixador dos Farrapos.
      “Fontoura ao iniciar seu Diário, estava imbuído das idéias arraigadas do espírito de quase todos os rio-grandenses da revolução.
     “… em começo de 1844, acreditava firmemente na vitória da república, esperando todos os dias a oportunidade de um combate em que os imperiais fossem esmagados.
     “E’ interessante acompanhá-lo, através das páginas do diário, em esperanças a princípio, depois a dúvida e finalmente ao irremediável desengano, que o levou à convicção de que só a paz, feita com honra e tratada a tempo, poderia salvar o Rio Grande do desastre de sangrenta derrota e da agonia de submissão incondicional.
     “A 27 de fevereiro (1845), batiam-se em duelo Bento Gonçalves e Onofre Pires, saindo este ferido e vindo a morrer dias depois, em conseqüência da gangrena sobrevinda ao ferimento.
     “Fontoura, que ainda tinha recente mágoa pela morte de Antônio Paulino, com este novo golpe chegou a descer por um momento e pediu demissão do posto de major, resolvido a se retirar da luta.
     “Em meados de setembro, novas cartas do Rio Grande trouxeram esperanças de paz, com a provável campanha contra Rosas. `E como só anelo a conclusão desta nossa malfadada luta, acredito sempre nestes boatos’.
     “Estas esperanças se precisaram depois, aparecendo as bases de conciliação, que era mais ou menos as que mais tarde foram aceitas. Estas condições foram divulgadas e `estadamente refutadas em públicas e acaloradas conversas por alguns malvados’.”
   
Durante a Epopéia Farroupilha, vimos em Vicente da Fontoura um homem mais cérebro do que combatente de armas em punho, porém atento e pragmático, de mente mais estratégica do que operacional. Participou dos primeiros embates, quando não motivar era omissão. Assim, participou da tomada de Rio Pardo, em 9 de outubro de 1835. Reservou-se, após, para as atividades fazendárias ou de chefe de polícia. Em situações críticas, era capaz de tomar o melhor partido e persuadir de forma irrefutável a seus contendores.    
Vicente da Fontoura, acérrimo defensor da causa pública não descuidava da família, como o vemos, primeiramente, no seu Diário, escrito em forma de carta a sua esposa Clarinda à qual se refere com profundo afeto. Ou no prólogo desse mesmo Diário, escrito talvez após o combate do Passo do Rosário*5. Aí revela gratidão e estima a seus progenitores, demonstra também sua preocupação com seus filhos e os estimula à luta, aos princípios morais, quando se lê:   *5   Fragorosa derrota dos Farrapos de Corte Real ante os legalistas de Bento Manuel e Silva Tavares, a 16 de março de 1836.
      “… Eu escrevo para meus filhos, pois a previsão que tenho de ver-lhes arrebatar, por efeito da revolução de meu Pais, a fortuna que lhes poderia legar para granjear-lhes uma subsistência honesta, é um forçoso motivo que me move a transmitir-lhes a série de acontecimentos que puseram o autor de seus dias na dolorosa colisão de vê-los entrar nos seus ternos anos envolvidos com privações.
     “De mais, se ficarem condenados a ganhar o primeiro pão de subsistência, possuam pelo menos um documento que, suposto não é exato nas regras históricas lhes ensinará, ao menos, o trilho da honra e o conhecimento dos homens, suas sem razões e injustiças, e o muito que um fado injusto ou um turbilhão de azares sempre enublaram meus dias…”
   
Retornado ao Prólogo, refere-se aos pais com compreensão pelos parvos estudos propiciados. Era oriundo de família modesta que logo se preocupou em integrá-lo na sociedade, buscando uma das casas de comércio para que obtivesse sustentação. Sustentação econômica que logo lhe ensejou destinar parte substancial para seus progenitores.  Atitude que revela sua magnânima postura. Mas não ficou só aí a demonstrar altivez, outra característica a pontuar sua expressão caracterológica. Já estabelecido com seu próprio negócio é submetido a “vergonhosa e irremediável quebra” por ter socorrido com mercadorias e aval a amigos, ingratos sem dúvida. Sua altivez não permite empaná-lo ante esses percalços. Vence. Em 1835, já usufruía a invejável condição de comerciante bem sucedido. Nesta época, também se dedicava à causa pública, sendo eleito vereador desde o ano de 30. Nomeado procurador fiscal, agiu com sentimento de realizar o bem estar de seus concidadãos.
Sua maior glória, além dos princípios morais e da invejável cultura que, por seu espírito de pesquisa, transformou-o em autodidata, foi sua ação na causa Farroupilha, como Embaixador da Paz.
Em março de 1845 o estado de guerra rumava para a pacificação. Bento Gonçalves e Caxias, em auspicioso encontro e imbuídos dos princípios que norteiam os homens de bons costumes, conseguiram algum avanço, mas não no acordo. Vicente da Fontoura, por sua habilidade e diplomacia, é convocado para as negociações finais. Ele pensa comparecer acompanhado do Gen. Rivera, do vizinho Estado Oriental, uma provocação não aceita por Caxias. As tensões se amainam, prevalece a boa vontade à intimidação. Negociações refeitas. E Vicente da Fontoura agora é convocado para defender os pontos de vista dos Farrapos junto à Corte no Rio de Janeiro. A 6 de novembro, parte para Bagé e a 19, para a Capital Federal.  Recebido com desprezo e hostilidades pelos Ministros do Império, da Guerra e da Justiça, o que não o intimida, antes descobre neles simples “vassalos do Poder”. E, na magnitude de seus princípios de justiça, enfrenta-os e os aniquila, usando apenas a ética com uma pitada de ironia. Tem audiência com o Imperador, que resulta em decisivo sucesso. Antes do retorno experimenta alguns dissabores e outros contatos na Corte, chegando até ter recebido voz de prisão do Ministro da Marinha. Manuel Marques de Souza, futuro Conde de Porto Alegre, como representante de Caxias que o acompanhava, tem importante participação junto aos Imperiais da Corte. Retornam finalmente, com o decreto Imperial, que propiciaria aos Revolucionários e a Caxias assinar o armistício. Um acordo honroso que, de imediato aceito, foi oferecido a Bento Gonçalves para referendá-lo.
   
Concluindo, releva que se transcreva o entendimento de Ferreira Rodrigues, comentando esta sua participação na fase final da Revolução:    
      “… Enquanto a individualidade dos outros havia diminuído, só a dele ganhara prestígio. Era um caráter e por isso vencia; era um caráter e talvez o único que houvesse atravessado, do começo ao fim, o ciclo revolucionário, sem desfalecimentos e sem falhas.”    
     
     
BENTO JOSÉ CORRÊA CÂMARA – TEN.-GEN*1.   *1   Fonte: Dante Laytrano, Rio Pardo Guia Turistico – Prefeitura Municipal).
     
Bento José nasceu em 1786, no Rio Pardo, onde foi batizado a 26 de julho do mesmo ano, tendo falecido aos 65 anos de idade no Rio de Janeiro, era 13 de abril de 1851.    
É o quinto filho de Patrício José Corrêa Câmara*2 e de Joaquina Leocádia da Fontoura. Ela, neta de JCF ele, açorita com uma vida voltada para a ação militar e administrativa no Sul. Bento José casou em Porto Alegre, em 10 de dezembro de 1804 com Maria Bernardina Ferreira Brito nascida em 1785 filha de Antero José Ferreira Brito, natural do Rio de Janeiro, secretário particular do Marquês do Pombal, e de Bernardina Antônia do Espírito Santo. Foram 9 os filhos do casal Bento José e Maria Bernardina.   *2   Patrício José inaugura o clã dos Corrêa Câmara no Brasil, em especial no Rio Grande do Sul com notável contribuição na conquista do território sulino arduamente disputado com os castelhanos. Vide sinopse biográfica nesta secção.
Ensina Dante Laytano que no tempo dos Corrêa Câmara duras batalhas travavam-se entre luso-brasileiros e castelhanos buscando a posse das terras orientais ao rio Uruguai. Bento José, em 1081, inicia a atividade militar, atingindo logo ao posto de tenente por ato de bravura na Conquista das Missões. Em 1816, já então coronel, enfrenta na fronteira o General Artigas, saindo ferido. Em Taquarembó foi um dos heróis. Cegou a Ten.-General. Em seu currículo militar anotam-se muitas batalhas com sua participação: Santa Maria, Tapevi, Araicuá, Ibicuí, Cunhaperu, Passo de São Borja, Palomas, Itaquatiá e Catalã, onde mais uma vez foi gravemente ferido. Valente, temerário e estratégico, no dizer de Aquiles Porto Alegre, também um patriota.    
     
     
FRANCISCO BARRETO PEREIRA PINTO    
     
Nasceu Francisco Barreto Pereira Pinto a 02-06-1709 em Lagoalva de Santarém, Terra da Feira, Coimbra, falecendo aos 67 anos, na vila de Rio Pardo, era 21 de março de 1775. Filho do Capitão-mor Manoel dos Santos Barreto, da vila da Feira, e de Dª. Madalena Pereira Pinto, da Terra da Feira, Portugal. No Brasil, chega por Minas Gerais, vai para o Rio de Janeiro em curta passagem, transfere-se para Rio Grande, após Viamão, para finalmente em 1755 transferir-se para Rio Pardo, como comandante daquele novo Regimento*1.   1   É o que informa J.G. Felizardo e J. Pinto Guimarães.
Ingressou na carreira militar no Regimento de Dragões, em 1726, já residindo nas Minas Gerais, aí chega ao posto de alferes em 1736; transfere-se para o Rio Grande, no contingente trazido por Silva Paes, ainda quando se faziam as sondagens para a implantação do novo posto da colonização. Promovido a tenente, a capitão, a sargento-mor, sua carreira militar vai sendo reconhecida como exitosa. Em 1772 é promovido finalmente a coronel depois de relevantes serviços prestados como tenente-coronel e Governador do Continente.
Inicia-se com o Cel. Francisco Barreto Pereira Pinto, casado com a primeira filha de JCF, Francisca Velloza da Fontoura, a numerosa prole dos Pereira Pinto ou Barreto Pereira Pinto. Nela se inserem os Menna Barreto e os Simões Pires, entre outros importantes ramos da Genealogia Sul-Rio-Grandense. Através da vida de seus 15 filhos vamos encontrar os traços marcantes da história sulina desde os seus primórdios. A eles confiava a Corte portuguesa a fundamental tarefa de desbravar a terra, a eles coube o consequente enfrentamento com os castelhanos pretendentes do mesmo solo.
Francisco Barreto Pereira Pinto quando ainda Capitão comanda o arranchamento de açoritas no sítio do Dorneles, distrito de Viamão. Era o ano de 1753, a tarefa revestia-se de extrema delicadeza. Aquela gente, recém chegada, como se rejeitada em Santa Catarina, depois em Rio Grande, sem rumo, desesperançada, já vindo sofrida das superpopulosas ilhas dos Açores. Os mantimentos escassos, incerteza no prometido assentamento. Ninguém como ele dispunha de tanta habilidade e poder de persuasão para lidar com aquele grupo de povoados. Foi incansável o Cap. Pereira Pinto.
Mas é a partir de 1762, ante a aproximação de Pedro Cevallos que sua contribuição torna-se decisiva para o domínio português. O Cel. Tomás Luís Osório põe-se retirante a partir de suas posições em Santa Teresa. O Governador Elói de Madureira cede Rio Grande e Cevallos planta-se nas barrancas de São José. O domínio do Brasil Meridional pende para os castelhanos. Em outra posição, Barreto Pereira Pinto é o Comandante da fronteira de Rio Pardo. Designado Governador do Continente, passa a entender-se diretamente com o Rio de Janeiro. Planeja um plano de contra-ataque aos de Buenos Aires. Esse enfrentamento requeria mais ousadia. O contingente aqui sediado seria quando muito equivalente ao poderio disponível por Cevallos. Precisavam-se de reforços, não só numéricos mas fundamentalmente de conceitos táticos e estratégicos além dos até então conhecidos. A Junta Governativa do Rio de Janeiro percebe e a Coroa não hesita, transferindo para o Continente do Rio Grande uma das mais importantes ações militares. Significativos reforços bélicos por terra e mar, também milicianos são recrutados em outros reinos, que se engajam à banda dos luso-brasileiros (João Böhn, Mac-Douall, Herdcastle). José Marcelino recebe o Governo e o comando de todas as operações militares. Presume-se que a grandeza maior de Barreto Pereira Pinto esteve em retratar com fidelidade o exato estado de nosso poderio bélico que, se enfrentasse o contendor, poderia ser transformado em afoiteza, registrando a História outra rumo aos acontecimentos. Os castelhanos foram expulsos a partir de Camaquã, Santa Bárbara e Tabatingaí, Rio Grande reconquistada e, finalmente, capitulado em Santa Tecla. Estas ações o Cel. Barreto Pereira Pinto em seus anos findos ainda pode comemorar.
   
     
     
FRANCISCO PINTO DA FONTOURA    
     
Nascido gaúcho de Rio Pardo no ano de 1816, o “Poeta da Revolução” foi assassinado em Livramento, era 30-10-1858. Destino também reservado a outros lideres Farroupilhas: Paulino da Fontoura, seu tio, este Vice-Presidente da República Rio-Grandense. e Vicente da Fontoura. Filho de Francisco Pinto da Fontoura e de Maria Inácia da Fontoura*1 casou com Leopoldina Ourique, em Alegrete, no ano de 1846, havendo desse casal quatro filhos.   *1   Conforme publicou o pesquisador Ivo Caggiani, corrigindo um equívoco reinante sobre a ascendência de Francisco Pinto da Fontoura – o Poeta.
Seu nome está ligado ao Hino Rio-Grandense, como autor do poema do hino oficial do Estado, cuja música é do negro, mineiro de Ouro Preto, o maestro Joaquim José de Mendanha. Consta que, ao ser executado pela primeira vez*2, o poema era outro. Isto ocorreu logo após a tomada de Rio Pardo, em 30 de abril de 1838. Serafim Joaquim Alencastre inspira-se e empresta letra3, que o Maestro adota para sua composição realizada em pleno cárcere dos Imperiais. Porém consta que, embora a música tenha agradado, a letra sofria alguma restrição. Ocorre que, em paralelo, Francisco Pinto da Fontoura escrevera versos para a mesma música de Mendanha. Mais espontâneos, eles dominaram a simpatia popular. Eis que, já na comemoração da tomada de Rio Pardo, um ano após, nos festejos realizados em Caçapava, na letra do “Hymno Republicano Rio-Grandense”, foi adotado o poema de Francisco Pinto que, com o mesmo ardor e civismo, inspirara a Serafim Alencastre. Mais adiante, durante as comemorações do Centenário da Epopéia Farroupilha, sob o patrocínio do Instituto Histórico Geográfico do Rio Grande do Sul, optou-se pela letra de Francisco Pinto da Fontoura*4.   *2   Foi em 05-05-1838, que Mendanha executa pela primeira vez o Hino perante o Estado Maior Farrapo. Por essa razão é o 05 de Maio considerado o Dia do Hino Rio-grandense, conforme calendário Histórico-Cultural do Estado.
*3   Letra de Alencastre: “No horizonte rio-grandense/ se divisa a divindade,/ extasiada em prazer,/ dando viva à liberdade.// Da gostosa liberdade/ brilha entre nos o clarão;/ da constância e da coragem/ eis aí o galardão. // Avante, ó povo brioso,/ nunca mais retrogador,/ porque atrás fica o abismo/ que ameaça vos tragar.// Salve, o Vinte de Setembro/ dia grato e soberano/ aos heróis continentistas,/ ao povo republicano.// Salve, o dia venturoso/ risonho trinta de abril/ que aos corações patriotas/ enchestes de gostos mil.”
*4   A revisão tornava-se necessária pois havia uma outra versão intermediária, publicada no jornal A Federação, de signo do Partido Republicano, castilhista, em 1887, e que adotava a letra de Serafim Alencastre, com alterações.  Essa revisão incluiu também a música para torná-la com métrica adaptável à letra e de ordem rítmica para dar-lhe um caráter marcial mais acentuado.
O Rio Grande do Sul que inseriu na história da Pátria, memoráveis feitos, sacrificando muito de seus filhos, cingidos de deveres e de patriotismo, assim canta o poema de Francisco Pinto da Fontoura, o Chiquinho da Vovó, como também fora conhecido, com música do maestro Mendanha e arranjo de Antônio Corte Real*5.   *5   A Lei 5213, de 05-01-66, oficializa o Hino Rio-Grandense, retificado pela publicação, de 11-11-68, do Diário Oficial. Deve-se, portanto, ter cuidado com gravações anteriores a esta data. A primeira gravação executada em caráter oficial é de 1971, executada pela Orquestra Sinfônica de Porto Alegre, sob a regência da Pablo Komlós.
 (1)   (2) – estribilho    O fulgor cívico que inspirou seus autores, frequentemente, obumbra-se em acanhado entusiasmo nos gaúchos de hoje. Conhecido, não como requer um símbolo cívico, talvez insinue quão esquecidos jazem os feitos que honraram seus ancestrais, ao estabelecerem os limites da sua terra, ou objetando a espoliação do Governo central, sempre imprimindo ardor a seus concidadãos. Mais do que isso, há por assim dizer, hoje, uma esmirrada vontade política  – e também confusão – em organizar a cultura legada, propiciando aos moços, desde tenra idade, através das escolas, inteirarem-se dos feitos e glórias do passado. Uma virtude que falta, perdida quando o interesse político se submete aos vícios da corrupção. Reascender essa garra é o que precisa ser resgatado. E é oportuno lembrar o final dos versos de Francisco Pinto da Fontoura. “povo que não tem virtude acaba por ser escravo”.
Como a aurora precursora   Mostremos valor, constância,  
do farol da divindade,   nesta ímpia e injusta guerra;  
foi o Vinte de Setembro   sirvam nossas façanhas  
precursor da Liberdade.   de modelo a toda a terra,  
    sirvam nossas façanhas,  
    de modelo a toda a terra.  
(3)   (4)  
Entre nos, sirva Atenas   Mas não basta para ser livre  
para assombrados tiranos:   ser forte, aguerrido e bravo;  
sejamos gregos na glória   povo que não tem virtude  
e na virtude romanos. – estribilho*6   acaba por ser escravo. – estribilho   *6  Hodiernamente, a estrofe (3), um estribilho, foi retirada da composição inicial de Francisco Pinto da Fontoura.
     
     
JOÃO DE DEUS MENNA BARRETO – VISC. S. GABRIEL    
     
O Visconde de São Gabriel, nasceu em 1769, na vila de Rio Pardo, aí falecendo aos 80 anos, em 1849. Filho do Cel. de Dragões Francisco Barreto Pereira Pinto e de D. Francisca Veloza da Fontoura, esta a primeira filha de JCF. Com João de Deus, foram 15 os filhos desse casal, nascidos em Rio Grande, Viamão e Rio Pardo, locais em cuja ordem se deu a migração dos primeiros colonos no Continente de São Pedro*1.   *1   Anotam-se 18 filhos de João de Deus, sendo que 14 com sua esposa e mais 4 havidos após o falecimento dela.
Desde muito jovem dedica-se à carreira militar, fazendo jus aos galões de marechal. Casou, aos 19 anos, com Rita Bernardes Cortes de Figueiredo Menna em dezembro de 1788. Dona Rita nascida em 1773, no Rio de Janeiro, faleceu em 1824. Esse casal é fulcro de um dos mais importantes ramos genealógico do Sul: os Menna Barreto. Um clã, cujo brio, arrojo e apego à legalidade cintilou na história militar do Brasil.
Sua influência que se destacara já na região Serrana (S. Nicolau) fez-se mais significativa na região da Campanha. Após a conquista de 1801, ação militar dirigida pelo Reino à Redução da Cruz, veio à ocupação propriamente dita. Na operação miliciana é capitão e chega a sargento-mor (major). Na ocupação, São Gabriel é seu destino. Enquanto as colunas do Reino invadem o Estado Oriental, João de Deus é mandado guarnecer aquele território das Missões. Liderança marcante, juntamente com: Francisco Machado da Silveira, Inácio Veloso da Fontoura, Pedro José Corrêa Câmara, José Maria Lobo d’Eça (Barão do Saicã), Pe. João de Almeida Pereira, Antônio Alves Trilha, Antônio Pinto da Fontoura e Manoel Carneiro da Fontoura, aos tempos de D. Diogo de Souza, dão origem ao povoamento de São Gabriel. Entre outros esses desbravadores receberam sesmarias na região do Batovi e Vacacai. Em 1812 o já Cel. João de Deus organiza o 1º Regimento de Cavalaria Miliciana da Fronteira. Em 1816, o Brigadeiro João de Deus, defendendo o território das Missões; confronta-se com o inconformado general oriental Artigas em renhidas batalhas. Na final, João de Deus resulta ferido e os invasores postos fora de combate. Veio o ano de 1817, outra batalha memorável, Catalã. Nesta também gravemente ferido resulta Gaspar Francisco Menna Barreto, seu filho primogênito.
  Um fato inverossímil é o de que João de Deus teria nascido Barreto Pereira Pinto e que ao casar, conforme dispositivos legais, justificou o nome para Menna Barreto. Isso se depreende do inventário de seu pai, Francisco Barreto Pereira Pinto. João de Deus, que era menor nesse evento já era Menna Barreto e não como consta na versão de Dante de Laytano (v. Guia Histórico de Rio Pardo, 2ª Ed, p 196 1º§) na qual acredita ser o Menna e decorrente do nome de sua esposa, alterado após o casamento.
Reformado desde 1832 como Marechal, foi residir em Porto Alegre. Vem a Revolução Farroupilha e ai se impacienta ante os primeiros ataques. Abraça a causa Legalista e prepara a reação na retomada de Porto Alegre, de 1836, assumindo o comando militar. Porém não se engaja na luta alegando questões de saúde*2. Feita a paz de Ponche Verde, em 1945, recolhe-se definitivamente, agora no seu torrão natal, Rio Pardo.   *2   Quem sabe também se possa cogitar do dilema resultante entre a justa causa dos Farroupilhas e a preservação da ordem monárquica
Foi distinguido com inúmeras condecorações por suas participações em lutas. Foi ainda Presidente da Junta Representativa e Governador das Armas da Província do Rio Grande do Sul, em 1822. Dignitário da Imperial Ordem Militar do Cruzeiro; Comendador da Imperial Ordem de São Bento d’Avis; e, com honras de grandeza, Visc. de São Gabriel, conforme carta imperial de 10-01-1846.    
     
     
JOÃO MANOEL MENNA BARRETO    
     
Nasceu João Manoel, como o 18º filho de João de Deus Menna Barreto, o Visconde de S Gabriel e de Maria Joaquina de Almeida. Era o ano de 1827 e na cidade de Porto Alegre. Bisneto de JCF, sua vocação militar o levou a brigadeiro do exército, faleceu em combate – Peribibuí, Paraguai – no dia 12 de agosto de 1869.    
Casou com Maria Balbina Palmeiro da Fontoura, irmã de Francisca, esta casada com João Propício*1 irmão de João Manoel. Foi no ano de 1849, e resultou em 5 filhos.   *1   João Propício, 2º filho do Visconde de São Gabriel; vide sinopse biográfica
Professou a vida militar com glória ímpar, cingindo os Menna Barreto com a tradição de várias gerações de soldados, que os honram e dignificam. Lutou na campanha do Uruguai de 1854, onde combateu Oribe e Rosas, participando do combate de Paisandu. Em 1865, já como coronel, depois de atuar na Corte Imperial, como comandante do 1º Regimento, passa a atuar da Guerra do Paraguai, participando entre outros eventos, das batalhas de Avaí e Lomas Valentinas. E o ferimento fatal na batalha de Peribibuí, aos 42 anos, rouba a vida deste, acima de tudo, disciplinado soldado.
O Brigadeiro João Manoel comandou várias guarnições, como as de Livramento, Uruguaiana e Missões, foi comandante das Armas da Província. Seu destaque é revelado pelas distinções recebidas: Oficial da Imperial Ordem Militar do Cruzeiro, Cavaleiro da Imperial Ordem Militar de Cristo, Hábito da Imperial Ordem Militar de São Bento d’Avis.
   
     
     
JOÃO NEVES DA FONTOURA    
     
Nascido em Cachoeira do Sul, em 1887 e falecido no Rio de Janeiro, em 1962. Filho de Isidoro Neves da Fontoura*1 e de Adalgysa Franco de Godoy. Foi casado com Iracema Barcelos de Araújo, resultando 3 filhos; o primogênito, Isidoro faleceu impúbere, Clara Luiza faleceu solteira e Maria Helena casou no Rio de Janeiro.   *1   Isidoro, republicano convicto, fundou esse Partido em Cachoeira, movimento que liderou desde a queda da Monarquia; Intendente em 1908, reeleito em 1912, não aceitou tomar posse e em 1919 é eleito para a Assembléia de Representantes para o que também recusou a posse. Próspero comerciante de 1877 a 1901 e depois de retirar-se da vida pública, em 1912, por iniciativa própria, dedicou-se à lavoura do arroz, uma atividade próspera então.
Desde criança se destaca nos estudos, foi interno para o colégio N. Sª. da Conceição, em São Leopoldo e conclui a Faculdade de Direito laureado. Aí, foi contemporâneo de Getúlio Vargas. São contemporâneos mais próximos ainda, Oswaldo Aranha, Flores da Cunha, Lindolfo Collor e Maurício Cardozo, entre outros, que formam o grupo dos “jovens turcos”. Lidera um “Bloco Acadêmico” sob o signo castilhista. Ao ingressar na Faculdade, Borges de Medeiros já havia sucedido Júlio de Castilhos há pouco mais de um ano.    
Ingressa na política, sendo convidado para a Promotoria Pública*2 da qual Getúlio Vargas acabara de renunciar. Retorna a Cachoeira e torna-se Intendente de 1925 a 1928, quando é eleito Deputado Federal (de 1928/30 e de 34/37). Embaixador em Portugal de 1943/45, no governo de Vargas. Ministro das Relações Exteriores e Embaixador nos Estados Unidos, no Governo de Dutra. Ministro Extraordinário da Conferência de Paz na Europa e Interamericana de Bogotá. Membro da Academia Brasileira de Letras.   *2    Sua iniciação política foi preparada com grande zelo por Borges de Medeiros ao reconhecer nele qualidades inatas, tanto é que, após a conclusão da Faculdade, recebeu recomendação de retornar à sua terra natal e lá, ao lado das atividades advocatícias, encaminhar-se aos cargos eletivos, municipais e da Assembléia de Representantes.
Tribuno notável que foi, sua obra nos chega através de diversos compêndios, relatando sua participação. Entre estes, temos Memórias (Borges de Medeiros e Seu Tempo), Acuso*3, Por São Paulo e Pelo Brasil, Jornada Liberal. Eis o que diz Antônio Carlos de Andrada no prefácio deste último livro, retratando a grandeza deste notável homem público que viveu na Era Vargas.   *3   Publicação em que se põe antagônico a Getúlio Vargas e justifica a adesão ao movimento paulista de 32
      “Seus discursos são modelos de extraordinária eloqüência, ardor cívico, força e persuasão e extrema fulguração verbal.”    
Compara-o a Rui Barbosa, Silveira Martins, José Bonifácio e Joaquim Nabuco que também fizeram nome na Câmara Federal. E prossegue, dando-nos um espelho de sua personalidade:    
      “Ele foi inexcedível no mérito de sugerir e formular iniciativas, conciliar opiniões, agremiar forças, suscitar e corporizar idéias, conter e serenar paixões; enfim, no talento de, por processos mais sutis e engenhosos, remover dificuldades, acomodar competições, desmanchar equívocos, compor divergências, unir, orientar e conduzir homens”.    
Nisto, relembra a Vicente da Fontoura, O Embaixador dos Farrapos e seu conterrâneo, como prossegue o citado prefácio:    
      “… ao lado da atividade tribúnica, coube-lhe, em todos os momentos, agir no meio subterrâneo da política, aquele que escapa a percepção pública e no qual freqüentemente mais sérios são os combates, mas necessários, por isso mesmo, em alta escala os atributos de comando. Nesse oculto, mas importante setor das campanhas políticas, ninguém sobrepujou a João Neves, na segurança da estratégia e na habilidade da tática.”    
     
     
JOÃO PROPÍCIO DE FIGUEIREDO MENNA BARRETO    
     
Segundo filho do fundador da família Menna Barreto, João de Deus, o Visconde de São Gabriel, e de Rita Bernarda Cortes de Figueiredo Menna, era portanto João Propício bisneto de JCF. Entre seus 17 irmãos consta outro bravo soldado o Brig. João Manuel*1, João Propício nasceu em 1792, em Rio Pardo, e faleceu em 1867, em São Gabriel.   *1    João Manoel, 18º filho do Visconde de São Gabriel (Vide sinopse biográfica).
Casou com Francisca Palmeio Pinto da Fontoura, trineta de JCF, e sobrinha de Paulino da Fontoura e Francisco Pinto da Fontoura, aqui biografados. Deste matrimônio resultaram 8 filhos, possivelmente todos nascidos em São Gabriel, onde se estabeleceu o casal antes de 1850.
Destacado militar, notável pela bravura nos combates, estrategista nato, imbatível na tática. Sentou praça, por dispensa régia, aos 12 anos de idade no Regimento de Dragões de Rio Pardo. Participou da Guerra das Províncias Unidas do Prata, distinguindo-se na batalha do Passo do Rosário. Na sua participação na revolução de 35, jamais se afastou da legalidade Imperial. Combateu Rosas, quando, em 1851, invadiu a Argentina. Em 1864, como comandante em chefe das forças Imperiais, invade o Uruguai, para combater Aguirre, distinguindo-se na tomada de Paissandu, em 1865, e na tomada de Montevidéu. Chegou ao posto de Marechal-de-Campo.
   
O Mar. João Propício foi agraciado com o título de Barão de São Gabriel (II)*2 com Honras de Grandeza. Dignitário, Oficial da Imperial Ordem Militar do Cruzeiro, Comendador e Oficial da Imperial Ordem Militar da Rosa, Primeiro Vice-Presidente do Rio Grande do Sul, em 1858 e Comandante das Armas da Província em 1864. Isto de per si, retrata o caráter invulgar e nobreza deste notável filho da terra gaúcha, descendente de seus primeiros povoadores.   *2    Uma informação que não se dá crédito é de que João Propício teria recusado o título de baronato. Pesquisado ao feito de seu inventário isso não encontra respaldo.
     
     
JOÃO SIMÕES LOPES FILHO – VISCONDE DA GRAÇA    
     
Nasceu em 1817, na cidade de Pelotas, aí falecendo em 1893. Filho de João Simões Lopes e de Izabel Dorothea Carneiro da Fontoura, neta de JCF, através de José Carneiro da Fontoura. Casou em primeiras núpcias com Eufrázia Gonçalves Vitorino, em 1836, em Pelotas, resultando deste matrimônio 12 filhos. Seu segundo casamento, realizado em 1857, também em Pelotas, foi com Zeferina Antônia da Luz e foram 10 seus filhos.
Defensor dos Farrapos, estava com 18 anos ao irromper o Movimento de 35. Dedicou-se ao comércio logo após, mais especialmente aos negócios de carnes, estabelecendo-se com uma charqueada em Pelotas. Ao lado de grande discernimento e iniciativa em seus negócios, tratou com expressivo senso social, sem jamais negar auxílio aos humildes e menos aquinhoados. Implantou um asilo em sua terra natal.
Na administração pública, foi Vice-Presidente da Província, no ano de 1871.
   
     
     
JOSÉ CARNEIRO DA FONTOURA    
     
José Carneiro da Fontoura, 2º filho de JCF, nasceu na Freguesia da N. Sª da Conceição do Curral d’El-Rey, do Bispado de Mariana, quando seu pai ainda estava ingresso no Regimento de Dragões da Província de Minas Gerais, no ano de 1733. Veio para o Rio Grande com seus pais e três irmãos, provavelmente, em novembro de 1737, ao iniciar a colonização que Silva Paes implantara, desde fevereiro do mesmo ano.    
Casado com Dorothea Francisca Izabel da Silveira, no ano de 1774, em Viamão, tendo o casal se estabelecido em várias povoações*1, devido suas incumbências militares em favor da conquista e povoamento da colônia luso-brasileira. Dorothea, nascida em 1762 em Rio Grande e falecida em Porto Alegre em 1796. Enquanto José Carneiro da Fontoura faleceu, em 1805, em Rio Pardo.  Foram 13 os seus filhos, entre os quais Ana Regina, o Ten. João Gualberto, o Ten. Pedro José, e Izabel Dorothea. Ana Regina, casou com o Cel. Engenheiro José Saldanha, que teve destacada participação na Comissão Demarcadora de Limites de 1777. O Ten. João Gualberto participou da ocupação definitiva dos 7 Povos das Missões, tendo comandado o forte de São Nicolau. Ao Ten. Pedro José, concomitante com a operação militar à Cisplatina de 1801, coube-lhe fazer parte do povoamento em torno de São Sebastião, nos “avançados campos de Bagé”. Estes povoamentos correspondiam a uma tática de ocupação iniciada em 1807. Aí assentou o núcleo do Carneiro da Fontoura, hoje município de Dom Pedrito, quando se estabeleceu às costas do Rio Santa Maria, limites da das terras de Portugal pelo tratado de Santo Ildefonso (1777). Izabel Dorothea casou com João Simões Lopes, com significativa prole dos Simões Lopes, em Pelotas, incluindo o Visconde da Graça, com sinopse biográfica nesta secção.   *1    A considerar o nascimento de seus filhos, teriam morado em Porto Alegre, Rio Grande, Rio Pardo, Viamão, Gravataí, estas duas últimas alternadamente.











Teve o Cap. José Carneiro da Fontoura destacada participação nos tempos da formação do Continente de São Pedro. Registra a História que no ano de 1763, terminada a Guerra dos 7 Anos, entre Inglaterra e França, envolvendo Portugal e Espanha, é assinado o Tratado de Paris. A Espanha devolve o Sacramento a Portugal. Os colonizadores espanhóis da América não se conformam, reforçam Montevidéu. Os jesuítas, em 1767, são definitivamente retirados, após gestões do Marquês do Pombal. A situação é tensa entre os colonizadores do Cone Sul-Americano. No ano de 1773, pretendendo reforçar as tropas que imprudentemente mantém Rio Grande sob domínio espanhol, J. J. Vertys y Salcedo chega a Montevidéu, avança pelo rio Negro e em sua cabeceira funda o Forte de Santa Tecla. Rio Pardo resulta como núcleo da resistência lusa, que não poderia ser desprezado nesse que seria avassalador ataque castelhano. Agora tropas de Vertas dirigem-se para o Jacuí e é batido em Camaquã, Santa Bárbara, Dom Marco e Tabatingaí. Era 14 de janeiro de 1774, quando Rafael Pinto Bandeira e Cypriano Cardozo, tendo a José Carneiro da Fontoura no comando do Regimento do corpo ulterior de Rio Pardo, derrotam a Zabala, um dos capitães de Salcedo. Festejado feito pelas tropas compostas por militares oriundos da gente da terra, enquanto se formava uma operação militar  – a maior do Reino –  recrutando oficiais militares de outras nações inclusive, para recuperar Rio Grande.    
     
     
JOSÉ SALDANHA    
     
Atuou, com invulgar contribuição, na Comissão Demarcadora de limites após o Tratado de Santo Ildefonso. Junto a ele também estiveram presentes Joaquim Félix da Fonseca Manso e João de Deus Menna Barreto, João José da Fontoura Palmeiro e João Propício Menna Barreto, estes dois últimos em São Nicolau. A ele foi conferida a patente de Capitão de Engenheiros, em face de sua especialização em Geografia e Astronomia, depois de bacharelar-se em Filosofia pela famosa Universidade de Coimbra. Consta que o Cap. José Saldanha, segundo H. J. Velloso da Silveira, no seu Diário Resumido além observações topográficas, insere inúmeras outras de caráter científico. E prossegue o citado autor de As Missões Orientais e seus Antigos Domínios, foi ele, por outro lado, um dos primeiros a registrar atentamente muitos termos e expressões do falar Rio-Grandense.
Só em 1801, após a definitiva conquista das Missões, foi que Saldanha deixou Santa Maria, passando ali 14 anos. Entretanto em 1799, lhe são conferidos terras – 3 léguas e meia –  no rincão de Tuparency, na fronteira de Rio Pardo (São Sepé).
   
Casado, em 1774, com Ana Regina Tomásia*1, esta a primeira filha de José Carneiro da Fontoura. Desse casamento resultou em apenas uma neta a JCF. José Saldanha, natural de Lisboa, é filho de José Saldanha e de Ana Joaquina.   *1    Alguns autores, tais como Paulo Xavier, em depoimento pessoal ao Coordenador da pré-edição (0.4 – 1998), questiona a verossimilidade deste matrimônio, assim como consta em Genealogia Rio-Grandense – Título Carneiro da Fontoura.
     
     
OSCAR CARNEIRO DA FONTOURA    
     
Filho de Alexandre Carneiro da Fontoura*1 e de Francisca Lopes Formoso, sua 2ª esposa, nasceu Oscar Carneiro da Fontoura, no ano de 1900, em Dom Pedrito, tendo falecido em Porto Alegre, em 27 de dezembro de 1977. Liga-se a JCF (5ª geração) através de José Carneiro da Fontoura*2 e de Pedro José e seus descendentes. Este último assentou-se nas imediações da Guarda Velha de São Sebastião, nos avançados campos de Bagé, que para aí foi, no ano de 1807. Oscar casou com Alice Machado e desse casamento resultaram 3 filhos.   *1    Alexandre, republicano assumiu a Intendência de D. Pedrito em 1890, em oposição aos Liberais e conservadores ortodoxos, por decisão de Júlio de Castilhos, logo após a Proclamação da República. Foi casado em primeiras núpcias com Izidra Carolina Barros, aí resultando 7 filhos, entre os quais Alencastro Carneiro da Fontoura, com sinopse biográfica nesta secção. (Já citado na sinopse biográfica de Alencastro Carneiro da Fontoura.
*2    José Carneiro da Fontoura, vide sinopse biográfica.
Viveu nos tempos de João Neves da Fontoura que, vindo de outro ramo, da 6ª filha de JCF, Angélica, era natural de Cachoeira do Sul. Oscar Carneiro da Fontoura, revelava-se já um hábil político e arraigado a causa maior: ao interesse da sociedade como força viva da Nação. Em 1932 juntamente com Borges de Medeiros, Raul Pilla, Batista Luzardo e outros, resultam exilados no Uruguai, por participarem da Revolução Constitucionalista de São Paulo. Após a anistia, em 1935, foi Deputado Federal, exercendo seu mandato pelo período de um ano, quando renunciou, retornando a atividade médica, em sua Terra natal. Voltaria a política mais tarde. Atilado, sua habilidade em gerir a sempre intrincada vida política regional e brasileira já o fazia um político de mente estratégica por excelência; coordena em 1954, no Estado gaúcho, as campanhas eleitorais que elegeram Juscelino Kubitchek e Ildo Meneghetti a Presidente e a Governador respectivamente.
Médico, formado em 1923, exerceu sua profissão em Dom Pedrito, onde era reconhecida a sua grandeza de espírito comunitário e a sua insubmissa fraternidade. Em 1928, foi eleito o primeiro intendente (prefeito) municipal pela oposição no Rio Grande do Sul, Partido Libertador. Cônscio de importância no mundo político que o envolvia, mesmo após seu deliberado recesso, assume a Secretaria dos Negócios da Fazenda, de 1937 a 1945; eram Governadores: Daltro Filho, por morte deste, Cordeiro de Farias, que foi sucedido por Ernesto Dorneles. Em 1946, elegeu-se Deputado Constituinte, pelo Partido Social Democrático (PSD), do qual foi um dos seus fundadores e Líder de Bancada. Em 1947, como Secretário do Interior e Justiça participa ativamente do governo Walter Jobim. Pecuarista, também atuou em 1962 como Presidente da FARSUL, ai empresta sua colaboração ao órgão de classe das atividades agropastoris.
   
           UMA MENTE ESTRATÉGICA E TINO PRAGMÁTICO    
Conduzido à pasta da Fazenda, coube ao Dr. Oscar Carneiro da Fontoura viabilizar as políticas econômica, orçamentária e tributária, tal que os recursos financeiros suprissem as metas das demais Secretarias de Governo. A resultante de sua ação política executada assim como a idelizou.entre outras teve as seguintes premissas:    
      – Manter um sistema fiscal justo. Um imposto exorbitante, além de inibir o contribuinte, conseqüentemente o coloca inimigo do Estado. Isso já se comprovou aqui mesmo no Brasil Colônia, no tempo da mineração, com a cobrança do “quinto”; injusto o é, também, porque pagam uns e outros, pela sonegação usufruem benefícios particularizados.
     – Manter um sistema fiscal justo. Um imposto exorbitante, além de inibir o contribuinte, conseqüentemente o coloca inimigo do Estado. Isso já se comprovou aqui mesmo no Brasil Colônia, no tempo da mineração, com a cobrança do “quinto”; injusto o é, também, porque pagam uns e outros, pela sonegação usufruem benefícios particularizados.
     – O equilíbrio orçamentário se dá pelo aumento da produção que importa em aumento da renda. O ganho na receita se daria pelo incremento da produtividade e jamais avultando a carga tributária. Os incentivos aos meios produtivos, antes de benefícios localizados, deveriam ser justificados pelo ganho coletivo. E o aumento da carga tributária só poderia ser pensado se houvesse um real melhoramento da prestação de serviço pelo Estado. Nisso era enfático ao declarar:
     – O Orçamento como ferramenta administrativa, requeria uma reorganização da Secretaria da Fazenda e do arcaico Sistema Contábil.
     – melhorar o desempenho do funcionário público, resgatando sua dignidade pessoal e sua autoridade funcional.
   
           UM EXEMPLO PARA SER SEGUIDO    
Já se aduziu sobre a sua habilidade de gerir situações de conflitos e sua mente estratégica. Já se tem notícia de sua magnitude no trato com os semelhantes. Ético, envolvente, ora instigador ora encorajador, sempre visando obter o maior rendimento de que cada um tem a dar para o coletivo. Porém, o exemplo de homem público, não se encerrou apenas nessas qualidades. Geriu os negócios da Fazenda sem jamais avultar a carga tributária, mesmo que, no dizer de Amyr Borges Fortes, coubesse a este ilustre pedritense “criar os recursos necessários indispensáveis às realizações dos demais secretários”.
Por diretrizes políticas dos governos que compôs, o Estado projetava-se para uma modernidade que representava industrialização e produção agropecuária, visando, inclusive, à exportação, mesmo diante de uma pecuária em crise e de uma lavoura colonial também. Para escoar a produção, requeriam-se investimentos maciços no transporte rodoviário e de cabotagem. A Secretaria da Fazenda encontrou recursos, e ainda, não com aumento de impostos; incrível, reduziu as tarifas dos produtos exportáveis em 65%.
A Receita Tributária, com um imposto sobre Vendas e Consignações taxado em 1,5%, distancia-se significativamente dos tempos atuais, onde a escassez de recursos financeiros é resolvida pensando-se mais em sobrecarregar a carga tributária sem a devida reflexão sobre os efeitos nos meios produtivos. Uma maneira de suprir a ineficácia administrativa pública, inescrupulosa às vezes, frontalmente avessa à empregada em sua gestão. Claro está, não se desconhece ficarem maiores, hoje, os encargos do Estado para com a coletividade, ou pelo menos mais complexos, pelas junções externas, de ordem econômica e de requisitos financeiros. Mas se ficaram, e a meu juízo, decorre de diretrizes literalmente incompatíveis com as traçadas na gestão dos negócios da fazenda de 37 a 45.
Tal sorte, se assegura, é em seu primoroso enfoque do social que se assenta tão profícua gestão na Secretaria da Fazenda, obra que se diria justa e perfeita, e dela fonte inspiradora de administração pública. Emana, pois, deste ilustre pedritense, seu mentor, um justo motivo de orgulho entre seus concidadões e que os rio-grandenses, também, o reverenciam.
Tal sorte, se assegura, é em seu primoroso enfoque do social que se assenta tão profícua gestão na Secretaria da Fazenda, obra que se diria justa e perfeita, e dela fonte inspiradora de administração pública. Emana, pois, deste ilustre pedritense, seu mentor, um justo motivo de orgulho entre seus concidadões e que os rio-grandenses, também, o reverenciam.
   
     
     
PATRÍCIO JOSÉ CORRÊA CÂMARA1   1    Fonte: Dante de Laytano, Guia Histórico de Rio Pardo.
     
Patrício José, português, da ilha São Miguel, nos Ações. Consta ter nascido a bordo do navio que transportava seus pais, o Desembargador Gaspar José Corrêa Câmara e de Isabel Inácia de Bitencourt, quando rumavam para o Reino de Portugal. Era o ano de 1737. Faleceu no Rio Pardo, já com 90 anos de idade, em 28-05-1827. Casado, em 1870, com Joaquina Leocádia da Fontoura, esta neta de JCF, através de sua 6ª filha Agélica Veloza da Fontoura.
A notável aptidão de Patrício Corrêa Câmara para a vida militar, desde cedo reconhecida, irá marcar sua vida. Radicado ao Rio Pardo, desde 1772, onde por meio século comandou as tropas aí sediadas. Ao chegar no Brasil já detinha o posto de capitão, tendo passado antes pela Índia.
Em seu tempo, os castelhanos dominavam Rio Grande, desde 1763, seriam expulsos 1776. Rio Pardo já era um importante ponto estratégico nessa luta de conquista do Sul. O local, sediando muitos dos luso-brasileiros, sesmeiros e militares, requeria um bem urdido censo comunitário sob pena dos interesses pessoais tornarem-se mais relevantes e assim prejudiciais a colonização portuguesa. Era gente oriunda de diversas localidades, os retirantes coloneses, os mineiros e vicentinos atraídos pelo gado bovino eqüino e muar que medravam bagualmente nestes campos deixados pelos expurgados jesuítas, os açoritas, que buscavam melhor oportunidade que as oferecidas em suas susperpopulosas ilhas. Corrêa Câmara, homem ativo, com poder de persuasão, na ação militar era um disciplinador, um estrategista e na vida comunitária, um realizador. José Marcelino, então governante máximo desta Colônia de São Pedro reconhecendo seus méritos o promove a Sargento mor em 1774.
Em tempos de paz, além dos cuidados com a vida social e infra-estrutura da Vila, mereceu sua atenção o quartel, a prisão, a casa da pólvora, entre outras obras, que foram reformadas. Reconstruiu a casa do Governo, reedificou também a igreja. Se por um lado os recursos financeiros para todos esses empreendimentos eram minguados, por dotação da Corte, soube Corrêa Câmara captá-los entre os concidadões, que propiciava um justo orgulho àquela gente ali sediada. Em 1808 reforma também a milícia de Rio Pardo. Em tempos de lutas, participou das campanhas de 1801, 1808, 1811, 1812 e 1816. Além dos sacrifícios pessoais, sem contudo comprometer, suas obrigações como chefe de família, teve de enfrentar os temidos charruas e minuanos, que se diz instigados pelos espanhóis.
Após a conquista das Missões, em 1801, foram muitos os cuidados a merecer a atenção de Correa Câmara. As terras antes ocupadas por castelhanos, agora cedidas, a saber: o Batovi, o vale do Jaguari, a passagem do rio Santa Maria, o acampamento do Herval, às cabeceiras do Jaguarão-Chico e do Rio Negro, a guarda de São Sebastião, precisavam mais do que os acordos diplomáticos das cortes ibéricas, requeriam a efetiva e imediata incorporação do território missioneiro, impedindo o avanço dos platinos. Isto no dizer de Dante de Laytano constituem capítulos importantes na biografia de Correa Câmara. Este em ação conjunta com D. Diogo de Souza, assegura o apoio militar e o assentamento dos luso-brasileiros. Na Campanha de 1811-1812, comandou a 3ª Divisão do Exército Pacificador e acompanhou D. Diogo de Souza a São Borja. Volta para Rio Pardo, para nas lutas de 1816-1820, comandar a fronteira de Rio Pardo.
Agraciado Comendador das ordens de São Bento d’Avis e de Cristo, Fidalgo Cavalheiro da Casa Imperial Brasileira, também fez jus a várias medalhas militares. Depois recebeu o título de Barão de Pelotas e um ano mais tarde, em 1826, detém o de Visconde. Título este também concedido mais tarde a seu neto, o Mal. José Antônio Corrêa Câmara.
Na luta pela independência, põe-se emancipacionista. Recebe a nacionalidade brasileira ao submeter-se à obediência do Príncipe D. Pedro.
O Visconde (1º) de Pelotas, foi proprietário de muitas terras, entre Palmas e Piraí, arroios afluentes do rio Pardo, e também em Encruzilhada, usufruindo as concessões facultadas pela Lei das Sesmarias. Sua vasta prole, gerada por 15 filhos.
Morre 5 anos após a emancipação política do Brasil.
   
     
     
SEBASTIÃO BARRETO PEREIRA PINTO    
     
Foi em Porto Alegre, no ano de 1780, onde também faleceu no ano de 1841, que nasceu Sebastião Barreto. Filho do Ten-Cel. Francisco Barreto Pereira Pinto e de Eulália Joaquina de Oliveira, neto paterno do Cel. Francisco Barreto Pereira Pinto*1 e de Francisca Veloza da Fontoura. Esta 1ª filha de JCF. Sebastião Barreto teve 10 irmãos. Casou com Matilde Clara de Oliveira em 1805, na vila de Rio Pardo, havendo três descendentes do casal.   *1    O Cel. Francisco foi um dos primeiros habitantes do Rio Grande do Sul, aqui chegando com a expedição de fevereiro de 1727. Homem de confiança de Silva Paes, acompanhou-o na incursão que desbravou a região das lagoas Mirim e Mangueira até o Taim, lá implantando importante posto militar que foi decisivo na conquista do território. Ingressou no Regimento de Dragões ainda nas Minas Gerais, em 1736. Consta ainda ter recebido ordens para assumir o comando do Regimento de Rio Pardo, após muitos outros feitos que o distinguiram como bravo estrategista militar
A vida de Sebastião Barreto Pereira Pinto esteve ligada à atividade militar, onde atingiu o posto de Marechal-de-Campo, em 1839. Jovem, aos 13 anos, ingressou no Regimento de Dragões de Rio Pardo comandado por Patrício José Corrêa Câmara. Participou com destaque da campanha de 1801, que resultou na conquista definitiva dos 7 Povos das Missões. Até ser promovido a sargento-mor, em 1813, serviu como tenente e capitão nas guarnições da Fronteira. Como tenente-coronel e coronel serviu na Cisplatina. Em 1822, subordinado ao Tenente-general Lecor, foi promovido a brigadeiro, tendo exercido o governo da praça de Montevidéu e, logo depois, assumiu o comando das Armas do Rio Grande do Sul. Sua maior decepção militar aconteceu quando, viajando em campanha, estava em Livramento, recebeu a notícia da sua suspensão do Comando das Armas, um ato admissível se isso não tivesse resultado no abandono pela maioria de seus comandados. Substituído por Barbacena, assumiu o comando da 1ª Divisão, com a qual bateu-se, a 20-02-1827, na batalha do Passo do Rosário (rio Santa Maria), Ituzaigó para os argentinos*2. Memoráveis feitos o distinguiram nas campanhas da Cisplatina de 1811 e 1812, 1816 a 1820 e ainda 1825 a 1828. Fiel ainda aos Imperiais, quando da Revolução Farroupilha, em 1838, durante a tomada de Rio Pardo, a 30 de abril, pelos revolucionários, foi batido.  








*2     Essa batalha, muito embora com destaque a bravura do Gen. Sebastião Barreto e de seus comandados, consta famosa nos registros da História Militar, da época, especialmente pela indecisão de ambos os contendores. Vencidos os brasileiros, que bateram em retirada em meio ao fogo ateado pelo inimigo; vencedores os argentinos, porém sem conquista de qualquer espécie e exauridos retornariam depois a suas bases. A Banda Oriental, Cisplatina para os brasileiros, estava no centro da luta, no ano seguinte, em agosto obteria sua independência política, um tratado sob o signo inglês, que necessitava da paz para favorecer sua política mercantil.
Comendador da Imperial Ordem Militar de São Bento d’Avis e Dignitário da Imperial Ordem Militar do Cruzeiro do Sul. Em 1840, depois de passar pelo Rio de Janeiro, foi nomeado Presidente da Província de Minas Gerais, mostrando também apreciável conduta administrativa. Também foi comandante das Armas da Província de Pernambuco.    
     
     

 

2 – FAMÍLIAS INTERLIGADAS     A amoreira lembra  a época da política visando à povoação do Reino Luso, Século XIII, quando distribuíram-se senhorios, mediante títulos nobiliárquicos. A consciência de municipalismo induzia à cidadania em contrapartida ao feudalismo europeu. Os da “Fonte Áurea”, já miscigenados com os Mouton, assim, talvez tenham se assentado em Chaves, Norte de Portugal, próximo as Astúrias, onde plantando amoreiras poderiam nelas cultivar o bicho-da-seda. Os Mouros já tinham sido banidos do território.
   
   
Azambuja  
Charão  
Corrêa Câmara  
Freire  
Menna Barreto  
Palmeiro Da Fontoura  
Pereira Pinto  
Simões Lopes  
Simões Pires



 
(Sequência de Famílias Interligadas inconclusa)
Matéria a ser aditada, após 2020, na Secção Memória/Discuções.
 

 

     
     
     
     
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  Tremula a liberdade, a ordem natural das coisas é plena e exitosa;
é tempo de recuperar as energias para novas ações que, por certo,
teimarão em perturbar a harmonia com denodo conquistada, assim, atilado, repousa o combatente.
 
 
 
 
 
 
 
 
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