REMINISCÊNCIAS - CARNEIRO DA FONTOURA
   

 

CARNEIRO DA FONTOURA

 

Um Testemunho da Cultura Sócio-política do

 Rio Grande do Sul

 

REMINISCÊNCIAS


S U M Á R I O

 

 

GENEALOGIA DOS CARNEIRO DA FONTOURA

 

1 - Caracterização Genealógica

2 - Genealogia Lusa

3 - JCF - Tronco Ancestral Colônia de São Pedro

    

 

  

 REMINISCÊNCIA HISTÓRICA

 

Século XVIII - Aos Tempos de JCF

1 - A Questão Dinástica Espanhola

2 - Corsários Franceses no Rio de Janeiro

3 - Ouro no Brasil

4 - Ocupação da Cisplatina

5 - Ocupação Primitiva do Continente do Rio de São Pedro

6 - Ocupação do Continente do Rio Grande de São Pedro

7 - Contexto Mundial no Século XVIII

8 - A Consciência Brasileira no Século XVIII

 

 

BIOGRAFIAS E LINHAGENS SECULARES

 

 

1 - Biografias

Alencastro Carneiro da Fontoura

Alexandre José de Queiroz e Vasconcelos - O Quebra

Antônio Manoel Corrêa da Câmara - Sargtº-Mor

Antônio Paulo da Fontoura

Antônio Vicente da Fontoura

Francisco Barreto Pereira Pinto

Bento José Corrêa Câmara - Ten.Gen.

Francisco Pinto da Fontoura

João de Deus Menna Barreto

João Manoel Menna Barreto

João Neves da Fontoura

João Simões Lopes Filho - Visc. Graça

José Carneiro da Fontoura

José Saldanha

 Oscar Carneiro da Fontoura

Patrício José Corrêa Câmara

Sebastião Barreto Pereira Pinto

 

...

 

 

2 – Famílias (Inconcluso)

Azambuja

Charão

Corrêa Câmara

Freire

Menna Barreto

Palmeiro da Fontoura

Pereira Pinto

Simões Lopes

Simões Pires

...

 


 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

APÊNDICE

(Incomcluso)

 

1 - Formação do Reino Luso

1.1 - Em Meio a Luta Contra os Mouros Nasce um Novo Reino

1.2 - A Primeira Dinastia: Os Borgonha

1.3 - A Dinastia dos Avis

 

2 - Histogramas

2.1 - Brasil Colônia - Colônia de São Pedro - Contexto Mundial

2.2 - Reino do Brasil - Bacia do Prata - Contexto Mundial

2.3 - Brasil Império - Província São Pedro - Contexto Mundial

2.4 - Brasil República - Província Rio Grande do Sul - Contexto Mundial

2.5 - Brasil República - Rio Grande do Sul - Contexto Mundial

 

3 - Mapas (Inconcluso)

3.1 - A Ocupação Moura, Península Ibérica, Séculos XII e XIII

3.2 - A Ocupação pelos Bárbaros, Século VIII

3.3 - Fidalgos Franceses nas Astúrias na Reconquista Cristã da Ibéria

3.4 - Tratado de Tordesilhas e a Conquista do Sul

3.5 - A Conquista e Posse do Território Brasileiro

3.6- As Guerras no Prata

 

 

 

 

 

  1. A  água brota da bica e, submetida ao vento, pende à esquerda,

  2. era preciso reformular essa tendência para, então,

  3. jorrar equânime e com total equilíbrio.

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  1. Houve um tempo em que os mouros subjugaram os ibéricos,

  2. restabelecer a normalidade era uma meta,

  3. infringiu-se acirrado combate aos temerários opressores, os quais por fim cederiam.

 

 

 

"A maior glória das famílias é mostrar sua antiguidade conhecida. à Biologia, porém, bastam cinco gerações portadoras de qualidades e defeitos, para a determinação da carga hereditária. Como hoje sabemos, nenhum ascendente colocado além da quinta geração pode ser responsabilizado por qualquer herança transmitida.

"Graças ao conhecimento de nossa ancestralidade, podemos detectar nossa presença e ação em cada etapa histórica da sociedade. Mas o conhecimento dessa projeção no tempo impõe, a cada um de nós, responsabilidades como pessoa atuante nos destinos da nacionalidade.

"Encontramos, na Genealogia, um instrumento científico da maior significação para individualizar as famílias de nossos precursores, ao mesmo tempo, vetores de tradição e cultura, ativos elementos geradores de riqueza e agentes da estabilidade social".

Paulo Xavier

 

 

GENEALOGIA DOS CARNEIRO DA FONTOURA

 

 

1 - CARACTERIZAÇÃO GENEALÓGICA

"Assim como a História do Brasil começa com a de Portugal", no entender de Hélio Vianna1, também o histórico da linhagem dos CARNEIRO DA FONTOURA (CdaF) remonta desde a formação do Reino Luso. A Terra de Santa Cruz foi descoberta pela vocação navegadora dos portugueses, na qual eram mestres, a saber, pela instituição no início do século XV, da Escola de Sagres, centro de estudos e experiências náuticas, pelo Infante D. Henrique, 2º filho de D. João I (10º Rei de Portugal, 1385 a 1433). Se tal fato liga, por sua conseqüência, a História de ambas as nações, um segundo teve sintonia não menos importante: é a elevação do Brasil à condição de Reino Unido ao de Portugal e Algarves, no ano de 1815. Neste, as conseqüências, para os brasileiros, em termos econômicos, políticos e culturais, são bem conhecidas. Esses dois fatos, além de tudo o que ensina a História do Brasil, tais como a partilha das terras, as primeiras expedições, a União da Península Ibérica em torno da Coroa Castelhana (1580), o Brasil Colônia, as lutas com os espanhóis pela conquista do Sul, as entradas e bandeiras, o povoamento do Rio Grande do Sul, sem dúvida unem a história destas duas nações.

Em especial, a conquista e o povoamento da Província de São Pedro do Rio Grande do Sul, admite-se seja resultante da acirrada disputa entre luso-brasileiros e hispano-americanos. Os pampas situados às margens do rio Uruguai, entre três importantes centros colonizados, Buenos Aires e Assunção (espanhóis) e Salvador (português), representavam conquista secundária. O ouro das Minas Gerais, a agromanufatura do açúcar, por exemplo, eram mais atraentes aos lusos. Abaixo de Laguna, Santa Catarina, término do domínio português pelo Tratado de Tordesilhas, era de fato distante demais para concentração do poder de conquista. Aos poucos, como terras de excelentes pastagens, foram despertando a cobiça dos colonizadores. Uma cogitação razoável é: essa região era disputada em conseqüência das questões políticas entre as duas metrópoles ibéricas. A Colônia do Sacramento (hoje Uruguai), ora foi domínio português, ora espanhol. De fato, representava demasiada ousadia lusitana uma incursão além de Laguna, atingindo a margem oriental do rio da Prata, onde logo ali se situava um vice-reino espanhol, com sede em Buenos Aires.

Em 1737, dia 19 de fevereiro, o Brigadeiro José da Silva Paes desembarcou na Praia Sul do Rio Grande, depois de localizado o posto do Cel. Cristóvão Pereira de Abreu, o qual, após adentrar pelo Continente, aí permanecera a sua espreita, conforme o previamente combinado. Dia 02 de março é realizada a primeira missa invocando a Jesus-Maria-José (a Sacra Família) como patrono do estabelecimento militar. Inicia-se assim, o povoamento sistematizado do Continente do Rio de São Pedro. Ao aqui chegar Silva Paes, em carta de 21 de junho, externa a importância econômica e, na de 20 de agosto, informa do significado estratégico. Em 1738, voltando ao Rio de Janeiro, onde assumiu o Governo, deixa aqui assentada a conquista que vai do Rio Grande à serra de São Miguel, mais ao sul do arroio Taim.

Em virtude da importância estratégica defendida por Silva Paes e das irreconciliáveis cismas e rusgas entre as cortes colonizadoras, é que reforços bélicos são concedidos ao Brigadeiro que, de 1738 a 1749, implanta o espírito de luta no qual até hoje se obstina a gente rio-grandense.

Consta que Gomes Freire, tão logo tomou conhecimento da implantação do Presídio Jesus-Maria-José, providenciou sua consolidação; assim, embarcou dias após, naus com armas, munições, suprimentos vários, tropas e povoadores. Em fins de 1737, mais casais de colonos são levados para Rio Grande. Aí iam ganhando chãos e rincões, estes para cultivo agropastoril, aqueles para construir suas moradias no povoado. As primeiras tropas chegadas, especialmente constituídas de dragões das Minas Gerais, foram logo transformadas em regimento, sob a comandância de André Ribeiro Coutinho.

Foi com esse contingente que João Carneiro da Fontoura (JCF) transferiu-se para Rio Grande. Não se pode, ainda, precisar o dia e a nau que o trouxe. Por certo se tem que acompanhavam-no a mulher e os quatro primeiros filhos.

João Carneiro da Fontoura (JCF) nascera em Portugal, em Chaves, vila da freguesia de Santa Maria Maior, provavelmente em 1679. Era o segundo filho de Antônio Carneiro da Fontoura e de D. Francisca Velloza. Seu pai, escrivão vitalício da comarca de Chaves e um dos últimos morgados de Loivos, deixou vários descendentes, sendo que José Carneiro da Fontoura, o primogênito, herdaria o morgadio2.

JCF preferiu a carreira militar, deslocou-se para o Brasil, em 1700. Aqui se instalou em Congonhas dos Campos, nas Minas Gerais, indo após para Curral d'El-Rey (hoje Belo Horizonte), ingressando no Regimento da Mineração. Daí transferiu-se para o Rio de Janeiro, vindo em seguida para o Continente do Rio de São Pedro (Rio Grande). Aí radicado em definitivo, através de seus dez filhos, assenta a linhagem dos CARNEIRO DA FONTOURA, a qual por várias gerações está ligada às conquistas e feitos que se registraram pelo Continente do Rio Grande a fora.

Casou com Izabel da Silva, natural de Torres Novas, Arcebispado de Lisboa, com origem na etnia cigana. Pelo nascimento de sua primeira filha, Francisca Velloza, em 1729, Congonhas dos Campos, onde casara, indica que as núpcias de JCF se deram em avançada idade (aos 50 anos aproximadamente). Seu 10º filho, Alexandre, nasceu em 1751 (Rio Grande), quando já contava 72 anos. Faleceu a 19 de agosto de 1769, com 90 anos, na vila do Rio Pardo, tendo passado antes por Viamão.

De seus filhos, José Carneiro da Fontoura (nome do irmão mais velho) esteve no comando da Fortaleza Jesus-Maria-José, construída às margens do rio Jacuí (Rio Pardo), João Carneiro da Fontoura (filho), comandou o forte de Santa Tecla (Bagé) e Alexandre ocupou vários postos militares onde chegou a Coronel de Dragões. Das filhas, de Maria Inácia (4ª) não houve descendência, Maria Tereza (9ª) falecida aos 22 anos deixou apenas três filhos. As demais, se miscigenando ou desencadeando importantes famílias entre as quais: BARRETO PEREIRA PINTO, SIMÕES PIRES, CHARÃO, SILVEIRA CASADO, MENNA BARRETO, BARRETO VIANA, PALMEIRO, determinaram que a estirpe dos CARNEIRO DA FONTOURA seja a que melhor caracterize a união da gente rio-grandense e todo o seu legado histórico. Hoje, cada gaúcho está envolto nesta linhagem, conforme se comprova pela preocupação de vários autores, como Aurélio Porto, Fonseca Guimarães, Jorge Godofredo Felizardo, Paulo Xavier, entre outros, em pesquisar sua genealogia ou relatar seus feitos.

Por fim, uma constatação de ordem heráldica traz informações sobre os primórdios da implementação desta linhagem. Conforme se depreenderá, o mesmo intento da luta que impregnou a história da conquista do Sul, também marcou de forma indelével a formação do Reino Português nos séculos XII e XIII. O Brasão de Armas, segundo dados pesquisados por Jorge G Felizardo, é assim descrito3:

bRASaNTIGOEscudo partido em pala, sendo a da direita em verde e a outra em campo prateado; na primeira, uma fonte de ouro, redonda e alta, da qual corre água da bica por três bacias inferiores; na segunda, uma árvore verde, um estandarte vermelho, com haste de ouro entremeando sua copa, ficando ainda, sob a sombra desta amoreira, um lebréu preto que, preso por corrente de ouro, fica em oposto ao estandarte4.

Essa insígnia assim era vista no frontispício do solar que herdara João de Fontoura em local denominado Pico Sacro, na estrada ligando Chaves a Santiago de Galícia, em Trás-os-Montes, a considerar o manuscrito do abade de Bouçaes. João de Fontoura proveio das Astúrias, reduto cristão que resistiu à invasão dos mouros desde o século IX. Dois de seus filhos, casando-se com descendentes do Duque de Mouton5, natural de França, deram origem à família CARNEIRO DA FONTOURA, a qual JOÃO CARNEIRO DA FONTOURA, em 1700, veio difundir na América portuguesa. Ao se referir à formação do Reino, afirma a História de Portugal que, em torno do Rei D. Afonso VI, uniram-se os Reinos de Leão, Castela e Galícia, dada a incômoda presença moura na Península já dominada quase integralmente, desde o século IX. Foi solicitado auxílio a fidalgos do antigo Reino Carolíngio e muitos, em razão de suas conquistas, aí se radicaram, como os irmãos Raimundo e Henrique de Borgonha. Este, precursor da implantação do Reino da Lusitânia. Pela mesma razão, presume-se, o Duque de Mouton teria sido levado para as Astúrias. E, tendo descendentes seus miscigenados com os Fontoura, adotaram o Brasão destes.

 Assim é, pois, que se levanta uma questão consistente à luz dos fatos mencionados: ligados à formação de Portugal desde a luta contra os árabes até sua consolidação política, bem como na conquista do Brasil meridional, os CARNEIRO DA FONTOURA constituem um dos mais importantes segmentos genealógicos. E também uma reflexão de ordem moral. Ainda que há mais de cinco gerações não se cogite da determinação de cargas hereditárias, a caracterização deste invulgar tronco ancestral reafirma os vetores de tradição e cultura que hoje se espargem e dão a compreensão do porquê desse legado a toda gente luso-brasileira, cujo compromisso mínimo é manter, com denodada abnegação, a permanente luta em prol de uma sociedade mais justa, objetiva, com homens livres a cultivar os bons costumes.

   

 

 

 

 

 1   Hélio Vianna, História do Brasil,  4ª Edição, São Paulo, Ed Melhoramentos, 1966.l

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

2     Morgado, aqui referido aos bens cartoriais concedidos por carta régia a fidalgos das comarcas portuguesas, indivisíveis, inalteráveis e transferidos do pai ao primogênito.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

      3  As referidas informações foram publicadas a Revista do Instituto de Estudos Genealógicos, São Paulo, fl. 95, 1º semestre, 1939 e na Genealogia Rio-Grandense. Nesta obra, cita o autor que o mencionado Brasão não tem registro no livro de Armaria da Torre do Tombo, nem consta da Nobiliarquia Portuguesa. (Talvez mesmo, dada sua remota origem, em épocas em que o Estado Português ainda não estivesse organizado, ou devido terremoto em 1755, quando o Arquivo Central da torre do Castelo de Lisboa resultou destruído.). São dados catalogados na Biblioteca de Lisboa, Colecção Pombalina, nº 377, fls. 267 a 288. Dados estes compilados a partir do manuscrito do abade de Bouçaes, Pedro Moraes Fontoura, que viveu no século XVIII, em Memórias Genealógicas da Família Fontoura, e ainda, Famílias de Portugal, de Jacinto Leitão Manso de Lima. ( posição de direita e esquerda na descrição do brasão, por convenção, é relativa ao portador e não ao observador) Observe-se que a inclinação das linhas hachurada também seguem uma convenção de cores..

 

4   A amoreira, em que uma das espécies é valiosa a considerar suas folhas como alimento ideal para o bicho-da-seda e que tem copa dupla. Sabe-se, durante a formação do Estado Francês (século XI), após a divisão do Reino de Carlos Magno, vários soberanos incentivaram o cultivo desta planta e inseto. Idêntica diretriz teria ocorrido em Portugal.

                Lebréu ou lebrel, feroz cão de caça ao javali e ágil como os galgos lebreiros, provavelmente, hoje correspondendo a um dog alemão (dinamarquês).

 

 

 

5      A  tradução de nomes próprios era comum na época; Mouton, do Francês, resultou em Carneiro.

 

 

2 - GENEALOGIA LUSA

De inconteste notoriedade, os CARNEIRO DA FONTOURA, cuja nobreza provém dos Fontoura das Astúrias  - reino que encetou a reconquista cristã da Península Ibérica - compilam-se vários informes quais já aduzidos e constantes do acervo da Biblioteca de Lisboa. Aqui no Brasil, além do Nobiliário Rio-Grandense, é sumamente importante a obra de João Pinto da Fonseca Guimarães, em co-autoria com Jorge Godofredo Felizardo, Genealogia Rio-Grandense  -  Título: Carneiro da Fontoura6. Trata-se de uma publicação editada em comemoração ao Centenário da reconquista de Rio Grande.

A ascendência de João Carneiro da Fontoura tem registro desde o século XVII. Há, no entanto, referências desde os anos que precederam a formação do Reino Português. Na luta para a expulsão dos mouros da Península Ibérica, era comum convergirem, para as Astúrias especialmente, nobres da Europa, franceses na maioria, para fazerem frente ao inimigo comum. Entre eles, o Duque de Mouton, antes de 1220, recebeu por incentivo um senhorio na região das Astúrias, passando-se a chamar Carneiro7. Descendentes seus entrelaçaram-se com os Fontoura  - de Fonte Áurea -  do mesmo Principado. Transferiram-se especialmente para a região de Trás-os-Montes e também para o Porto. Desse ancestral francês, descende Martim Carneiro, possivelmente o progenitor dos Carneiro, entre outros nobres da mesma estirpe, tais como os da Ilha de Príncipe e de Lumiares.

Sucede-lhe, ainda, um outro Martim Carneiro (2º), pelo menos através de Diogo Carneiro e de Gil Carneiro. O 1º Martim Carneiro aqui referido, viveu no século XIII, a considerar ter ele pertencido à Corte de D Afonso II (1211-1223). Ao 2º, é possível tivesse nascido no início do século XVI.

De outra linhagem, João de Fontoura, habitante da vila Chaves, próximo ao ano de 1500, descendem três filhos: João, Manoel e Anna. Esta casada com Martim Carneiro (2º) cuja filha Maria Vieira Carneiro casou com seu tio Manoel de Fontoura, fidalgo da Casa d’El-Rei. Sete são os seus descendentes, entre os quais Francisco Carneiro da Fontoura. Foi este bisavô de João Carneiro da Fontoura que veio parar em Rio Grande, por vocação militar, e aí se constituiu em um de seus primeiros povoadores.

Certamente não foi o único a transferir-se para as terras além-mar de um Portugal conquistador. A genealogia dos Fontoura de Portugal menciona que, pelo menos três descendentes assentaram-se no Brasil, em Recife e no Rio de Janeiro. Fogem, no entanto, quaisquer outras referências8. Porém é em João Carneiro da Fontoura, radicado em terras gaúchas, que se encontrará ligação para a quase totalidade dos que ainda hoje levam este sobrenome no Sul, talvez no Brasil.

 

   

 

 

 

 

6    Este volume, primeiro de uma série que englobaria outros importantes troncos seculares estabelecidos desde os primórdios da colonização do extremo sul brasileiro, lastimavelmente não teve continuidade.

 

 

7   É de se recordar que desde o 2º Rei Português, D. Sancho I (1185-1211), concomitantemente ao banimento muçulmano da Península, implantou-se uma política de povoamento e integração com os nobres estrangeiros, aos quais eram oferecidos senhorios na região trásmontana. D. Denis (6º Rei, 1279-1325) incrementou o cultivo da terra, também distinguindo com títulos nobiliárquicos aos que a ela se dedicavam. D. Fernando (9º Rei, 1367-1383), visando ao aproveitamento de terras devolutas, criou a Lei das Sesmarias, em Portugal.

 

 

 

 

 

8    Além de Manoel Rodrigues da Fontoura (em Recife, aí vivendo descendentes, pelo menos até 1759) e Diogo Carneiro da Fontoura (no Rio, mas regressando para Lisboa) que menciona manuscrito do abade de Bouçaes, cita a painelista Sônia Aparecida Siqueira, conforme Anais do Simpósio Comemorativo do Bicentenário da Restauração de Rio Grande (V. 2, p. 116), em sua tese, Presença da Inquisição na Colônia do Sacramento, Agostinho de Fontoura. Este se radicou na Colônia do Sacramento, envolvendo-se nos negócios do Santo Ofício, em 1769; natural da freguesia São Thiago de Firvidellas, Arcebispado de Braga, casado com Ana Maria de Jesus. Nada consta sobre sua descendência e destino tomado. Nesta época, sofria a Colônia violento ataque por Pedro Cevallos desde 1762, que foi cedida aos castelhanos em decorrência do Tratado de Santo Ildefonso. Também, em 1761, terminava a Inquisição no Brasil.

 

3 - JCF - Tronco Ancestral Colônia de São Pedro

 

 A Cronologia de JCF

CRONOLOGIA DE JCF

REGISTROS HISTÓRICOS

1769 - Ano provável do nascimento de JCF, em Chaves, Trás-os-Montes, Portugal.

1694 - Nasce Izabel da Silva, Torres Novas.comarca de Tomar, Lisboa.

 

- Reina em Portugal Dom João V, entronizado em 1706.

-  Luís XIV, no apogeu do absolutismo.

 

 

.?.   - Muda-se para Curral São João d'El-Rey (B. Horizonte).

.?.    - Ingressa na carreira das armas (Dragões, Regimento da Mineração).

- Acordos anglo-lusitanos visam aceder ao mercado platino,  em oposição forma-se a aliança franco-espanhola.

- Colônia do Sacramento, tomada pelos castelhanos, é ocupada de 1705 a 1716.

1707 - Guerra dos Emboabas, Minas Gerais.

1710 - Corsários franceses já ameaçam Rio de Janeiro.

1720 - Revolta de Vila Rica, Minas Gerais.

1728 - Casa com Izabel da Silva aos, 49 anos de idade, Minas Gerais.

1729 - Nasce o 1º filho: Francisca, Sabará,  MG.

 

 

1733 - Nasce o 2º filho: José, Curral d'El-Rey, MG.

.?.      - Transfere-se para o Rio de Janeiro.

1734 - Nasce o 3º filho: João, Rio de Janeiro.

.?.     - Nasce o 4º filho: Maria Inácia. (R de Janeiro?).

 - A mineração nas Minas Gerais ostenta grandeza e no Sul os rebanhos de gado xucro despertam colonizadores lusos e espanhóis, também os ingleses e franceses, estes pelo mercantilismo.

1731 - Minas  agora já produz diamantes.

- Sesmarias são distribuídas no Sul e o lagunense João Magalhães é agraciado com uma estância.

 

1735 - Nova ofensiva espanhola e a Colônia resulta sitiada, restituindo-a em 1747.

1737 - Transfere-se para Rio Grande - final ano - com 58 anos.

1737 - Silva Paes chega à embocadura do rio de São Pedro (Rio Grande).

1738 - André Ribeiro Coutinho concede-lhe um chão (33 braças) na Rua da Igreja para construir moradia para mulher e quatro filhos; e também mais 500 braças lhe são agraciados.

1738 - Criada a Comandância Militar de Rio Grande, subordinada ao Rio de Janeiro e vinculada a Santa Catarina, com guardas avançados no Chuí e Taim.

1740 - Nasce o 5º filho: Joana, Rio Grande.

1740 - O ouro nas Gerais representa a maior avidez, porém os impostos são exorbitantes.

 

1742 - Nasce o 6º filho: Angélica, R. Grande.

1743 - Casa o 1º filho: Francisca.

1744 - Nasce o 1º neto: Ana Josefa (1.1), R. Grande.

- Nasce o 7º filho: Inácia Maria, Rio Grande.

1745 - Nasce o 2º neto: Severina Maria (1.2)1, R. Grande.

1747 - Nasce o 3º neto: Maria Eulália (1.3), R. Grande.

1741 - Fundada a Capela Grande de Viamão.

 

 

 

 

 

 

 

1747 - Rio Grande é elevada à vila

1748 - Nasce o 8º filho: Jerônima, R. Grande.

  - Transfere-se para Viamão (?).

 

1750 - Nasce o 4º neto: Inocência (1.4), Rio Grande.

- Nasce o 9º filho: Maria Tereza, Viamão.

 

1750 - Tratado de Madrid.

- Francisco Pinto Bandeira, com 60 aventureiros vicentinos, encontra-se no passo do Rio Pardo.

- Já em construção a primitiva Matriz de Rio Pardo.

1751 - Nasce o 10º. filho: Alexandre, aos 72 anos, R Grande.

1751 - França: lançamento da Enciclopédia.

- Rio Pardo: construção do Forte Jesus-Maria-José.

- Ataque dos Tapes.

1752 - Nasce o 5º neto: Helena Máxima (1.5), Rio Grande.

1752 - Açorianos na colonização do Sul.

 - Tomás Luís Osório é designado para guarnecer Rio Pardo e Gomes Freire aí centra o contingente luso-brasileiro visando à ocupação dos 7 Povos das Missões.

 

1753 - Os índios (instigados pelos espanhóis?) voltam atacar Rio Pardo. Construída, no Alto da Fortaleza, uma capela consagrada à Sagrada Família.

1754 - Nasce o 6º neto: Engrácia (1.6), Viamão.

1754 - Guerra Guaranítica; Sepé Tiaraju derrotado em 1756;

 - Casais de açorianos são arranchados por Gomes Freire em Rio Pardo. Reinicia-se a demarcação de terras, conforme preceitua Tratado de Madri.

1755 - Provável transferência de JCF para o Rio Pardo, quando já cotava com 76 anos.

1755 - Francisco Barreto Pereira Pinto é nomeado comandante de Rio Pardo, transferindo-se de Viamão onde servia.

 - Novas sesmarias: bacia do Ibicuí.

 - Terremoto em Lisboa.

1756 - Nasce o 7º neto: Juliana Severina (1.7), Rio Pardo;

- Casa o 6º filho: Angélica, Rio Pardo.

1757 - Nasce o 8º neto: Vicência Maria (1.8), Rio Pardo.

1758 - Nascem os netos (9º e 10º):

- Francisco (1.9), Rio Pardo e

- Francisca (6.1), Rio Pardo;

- Casa o 5º filho: Joana, Rio Pardo.

1756 - Fundados os fortes de Santo Amaro e Rio Pardo.

 - O reinado de D. José conta com o Secretário de Estado Marquês de Pombal. Os jesuítas são perseguidos com uma bem urdida ação junto a Santa Sé e Espanha.

 - O Iluminismo, especialmente na França, e a Revolução Industrial (inglesa) imporão nova ordem social no ocidente.

1759 - Nasce o 11º neto: Cândida Ângela (1.10);

- Casa o 2º neto: Severina Maria (1.2);

- Nasce o 12º neto: Dorothea Maria (5.1), Rio Pardo.

1759 - Expulsão dos jesuítas.

- Família Agueda estabelece-se em Rio Pardo, vasta descendência (12 filhos).

1760 - Casa 7º filho: Inácia Maria, R Pardo;

- Nascem os netos (13º e 14º):

- João Adolfo (5.2) e

- Antônio (6.2), Rio Pardo.

 

1761 - Casa o 1º neto: Ana Josefa (1.1), Viamão.

- Nascem os netos (15º, 16º e 17º):

- Antônio Adolfo (5.3), Rio Pardo;

- Joana (6.3), Triunfo;

- Gertrudes (7.1), Rio Pardo.

 

1762 - Nascem os netos (18º, 19º, 20º e 21º):

- Propícia (1.11), Rio Pardo;

-  Ana (6.4), Rio Pardo;

- Manoel (7.2), Mostardas;

-  Angélica (3.1), Rio Pardo.

1762 - Félix José Pereira, coronel de Cavalos da Ordenança, é nomeado assistente do Comandante da Fortaleza do Rio Pardo.

- Novo ataque à Colônia do Sacramento por Pedro Cevallos.

1763 - Nasce o 1º bisneto: Bernarda Luiza (1.1.1), Viamão;

- Nascem os netos (22º e 23º):

- Francisca (1.12), Rio Pardo;

- Maria Joana (5.4), Rio Pardo;

- Casa o 2º neto: Inocência Maria (1.4), R. Pardo;

- Casa o 8º filho: Jerônima, Rio Pardo.

1763 - 4ª incursão espanhola, tomando Santa Tereza e Rio Grande; inicia-se a grande retirada lusa do Sacramento; migração de luso-brasileiros para Viamão.

- Francisco Pinto Bandeira, com os capitães de auxiliares e ordenanças, rechaçam os espanhóis, que ameaçava Rio Pardo, recebidos com grandes festas, trazem copiosa presa de guerra.

- Vice-Reino do Brasil: centralizada a administração no Rio de Janeiro;

- Finda a Guerra dos 7 Anos, envolvendo França e Inglaterra, esta sai fortalecida;

- Cessa estado de guerra entre ibéricos.

1764 - Casa o 9º filho: Maria Eulália, R Pardo;

- Nasce o 24º neto: Matilde Cândida (7.3);

- Nasce o 25º neto: Maria Eulália (9.1), Rio Pardo;

- Nasce o 2º bisneto: Francisco de Paula (1.4.1), Triunfo.

1764 - Instaura-se, em Rio Pardo, na Casa de Aposentadoria de Agostino Félix Santos Campelo, Desembargador dos Agravos e professo na Ordem de Cristo, devassa contra o Governador Inácio Elói de Madureira e o Cel. Tomás Luís Osório, guardião de Rio Grande, que caíra nas mãos dos castelhanos.

1765 - Nasce 26º neto: Manoel (5.5), Triunfo.

 

1766 - Nasce o 27º neto: Joaquina Leocádia (6.5), R. Grande.

 

1767 - Nasce o 3º bisneto: Miguel (1.4.2), Triunfo;

- Nascem os netos (28º e 29º):

-  Manoel Adolpho (5.6), Viamão;

- Gertrudes (1.13), Rio Pardo.

 

1768 - Casa o 2º neto: Maria Eulália (1.3), Rio Pardo;

Nasce o 4º bisneto: Antônio (1.4.3), Triunfo;

-  Casa o 4º filho: Maria Inácia.

1768 - O Cap. Francisco Pinto Bandeira passa a comandar a guarda instalada no Tabatingaí; os espanhóis protestam.

1769 - Nascem os netos (30º, 31º e 32º):

- Salvador (8.1), Rio Pardo;

- João de Deus (1.14), Rio Pardo;

- Maria Cândida (6.6), Rio Pardo;

-  Nasce o 5º bisneto: Vicente (1.3.1), Rio Pardo.

1769 - José Marcelino de Figueiredo é nomeado Governador do Rio Grande do Sul e Comandante do Regimento de Dragões de Rio Pardo.

 - Criada a freguesia de N. Sª. do Rosário de Rio Pardo, a 4ª do Rio Grande do Sul.

 1769 - Faleceu JCF a 19 de agosto na vila de Rio Pardo, aos 90 anos e 25 anos após, Izabel da Silva, a 17 de fevereiro de 1794, em Rio Pardo, aos 100 anos. Rio Grande, agora a mais meridional vila portuguesa, que JCF ajudou a fundar, permanece no poder castelhano, mas logo em seguida, em 1776, será novamente reintegrada aos luso-brasileiros, onde a segunda geração dos primitivos desbravadores fez-se atuante.

 

 

 

 

 

 

França e Inglaterra se hostilizam. O absolutismo francês está no auge. Na Espanha, o Trono é disputado por dois pretendentes - o Bourbon, Duque D’Anjou e por Carlos Habsburgo, da Casa da Áustria. Em Portugal, D. João V (1706-1750) sucede a D. Pedro II, este com envolvimento na questão dinástica espanhola. O reinado de D. João V favoreceu as ciências, as artes e a economia. No Brasil, o ouro produziu uma corrente migratória de luso-brasileiros para as Minas Gerais. Na América, Laguna (1684) é a mais meridional vila portuguesa e Colônia do Santíssimo Sacramento, fundada em 1680, sofre hostilidades castelhanas. Em 1726, os espanhóis fundam Montevidéu.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

1   Os números após os nomes indicam a codificação que consta na árvore; neste caso 1.1, representa o primeiro neto de JCF descendente do seu primeiro filho; noutro exemplo, caso fosse 5.3.2, representaria o segundo bisneto nascido do terceiro neto que nasceu do quinto filho de JCF.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

O Iluminismo francês e a Revolução Industrial inglesa começam a se propagar em todo o Planeta, gerando:

  • movimentos cívicos-culturais;

  • expurgo do feudalismo e absolutismo;

  • a Independência das 13 Colônias - EEUU;

  • a Revolução Francesa;

  • a descolonização da América;

  • a política liberal burguesa e radical democrata;

  • a substituição do colonialismo pelo imperialismo;

  • a economia mercantilista industrial.

 

 

 

O Continente do Rio Grande é cada vez mais uma região de domínio luso, mas suas fronteiras ainda não estão definidas. Para esse domínio, muito contribuíram, a estratégia de Silva Paes e a obstinada luta de seus primeiros povoadores, especialmente os trás-montanos, açorianos, madeirenses além dos vicentinos, lagunenses, mineiros e coloneses, que aí levantaram residências, mesmo que a opulência da mineração nas Gerais representasse recompensa imediata

 

 

REMINISCÊNCIA HISTÓRICA

 

1 - A Questão Dinástica Espanhola

2 - Corsários Franceses no Rio de Janeiro

3 - Ouro no Brasil

4 - Ocupação da Cisplatina

5 - Ocupação Primitiva do Continente do Rio de São Pedro

6 - Ocupação do Continente do Rio Grande de São Pedro

7 - Contexto Mundial no Século XVIII

8 - A Consciência Brasileira no Século XVIII

 

 

 

O estandarte escarlate, em fulminante ação, une através de seu tremular os infatigáveis defensores da liberdade; e ao alto se afigura tal que nada se lhe obumbre e submeta.

 

 

 

  

 

Século XVIII - Aos Tempos de JCF

JCF, nascido em Portugal (1679), teve uma vida ativa durante a primeira metade do século XVIII, em sua maior parte no Brasil. Faleceu aos 90 anos, no Rio Pardo, um dos núcleos que ajudou a fundar, desbravando a nova Colônia.

Fatos existem que evocam uma pesquisa mais acurada e certamente transformarão algumas das hipóteses, agora levantadas, em componentes de sua vida, talvez enriquecendo outros. São ocorrências desde o momento em que se transferiu para o Brasil e após, ao se radicar no Continente do Rio Grande de São Pedro. Ei-los, a seguir.

 

 

 

1 - A Questão Dinástica Espanhola

Ao final do século XVII, reinava na Espanha Carlos II, sem sucessor direto. Pelo menos dois pretendentes movimentavam a diplomacia européia de então.

Ocorre que Luís XIV, da França, sustentava a pretensão de seu neto, o Duque D'Anjou, da dinastia dos Bourbons. De outra parte, também postulante ao Trono castelhano, estava o Arquiduque Carlos de Habsburgo (Casa da Áustria), referendado pela Inglaterra, Holanda e Alemanha. Portugal atraído por Luís XIV, assina acordos provisionais com a França (1700) e com a Espanha (1701), obtendo garantias para seus domínios ultramarinos. Com a França, posse do rio Oiapoque e domínio das terras do Amapá; com a Espanha, a posse da Colônia do Sacramento. É decisivo. Passa Portugal a defender o reinado de Felipe V (D'Anjou), que foi entronizado após a morte de Carlos II, em 1700. A Inglaterra, uma nação emergente, assedia Portugal com maiores vantagens, o que faz o rei luso, D. Pedro II, mudar seu respaldo em favor do pretendente da Casa da Áustria. É decisão mudada. Assim, a entronização de Felipe V não estava consolidada entre os reinos europeus, e a nova postura da diplomacia portuguesa, ainda que visasse pressionar a franceses e espanhóis transformarem os acordos provisionais assinados em tratados definitivos, resulta em revides na Colônia luso-americana.

A questão do Trono espanhol só ficaria plenamente resolvida, embora D'Anjou o tenha ocupado por desejo testamentado de Carlos II, quando em 1711, falecendo o Imperador alemão, Carlos de Habsburgo assume o Império como Carlos VI, desfazendo-se da pretensão ao da Espanha. D'Anjou‚ reconhecido como Felipe V, a Inglaterra intermedeia a pacificação dos ibéricos, ensejando o Tratado de Utrecht, em 1715.

 

  

 

Tal questão, muitas conseqüências trouxe para o Brasil Colônia de então: foram as incursões dos corsários franceses em 1710 e 1711; foram as ofensivas dos espanhóis no Sacramento (1704-1705) que muito diz respeito ao estudo aqui exposto. De fato, destes episódios emergem talvez motivos que fizeram JCF aportar nestas plagas, tendo aqui disseminado vasta clã.

 

2 - Corsários Franceses no Rio de Janeiro

A brusca guinada de apoio a Felipe V, que levou Portugal a aliar-se com os ingleses e holandeses, resulta em franca controvérsia com os franceses que se consideram traídos. Sem mais alternativas por via diplomática, planejam incursões piratas na Colônia lusa da América. A cidade do Rio de Janeiro foi escolhida como alvo, um rico porto exportador de ouro, recentemente descoberto nas Minas Gerais. Era o ano de 1710.

Primeiro foi Du Clerc que, com 6 navios, ataca e é rechaçado na Fortaleza de Santa Cruz; já em terra, revida pelos arrabaldes do Engenho Velho, porém‚ é posto fora da ação. Preso, é assassinado posteriormente.

Novo ataque, em 1711, ocorreria por Dougguay-Troin. Tropas de reforço já providenciadas das Gerais não chegariam a tempo. Bem sucedido em seu intento, zarpa da Cidade com sua frota lastrada pelo produto do saque obtido.

Nessa mesma época, era tumultuada a disputa pela mineração nas Gerais. Ocorreu, em 1707, a Guerra dos Emboabas e, em 1720, a Revolta de Vila Rica.

 

 

 

Estes fatos determinariam às autoridades locais, temendo novos ataques ao incipiente porto da Guanabara, exportador do ouro, que começava a ser explorado, recrutar tropas de guerra. É pois, deslocado das Minas Gerais um contingente militar. Primeiro, o fazem temporariamente e, após, criam-se tropas regulares sediadas no Rio de Janeiro.

Admite-se que este novo pólo de inquietação, estratégico, seja a razão da transferência de JCF de São João d'El-Rey para o Rio de Janeiro que, em caráter definitivo, ocorrera entre 1733 e 1734.

 

3 - Ouro no Brasil

Até o fim do século XVII, a política colonial da Metrópole usufruía significativos lucros fazendários com a cana-de-açúcar e o próprio açúcar exportado do Brasil. Também o tabaco serviria de suporte ao tráfico negreiro. Já o algodão, face aos acordos entre Portugal e Inglaterra (1730 e 1785), que não facultavam a implantação de indústrias têxteis no Brasil, era exportado especialmente para servir de insumo à nascente tecelagem inglesa. Esse, uma vez processado, iria servir de mercancia nos domínios portugueses, inclusive.

Foi, no entanto, a descoberta do ouro pelos bandeirantes em 1693, por Antônio Rodrigues Arzão, que produziu quiçá o mais significativo movimento migratório de lusos, baianos, pernambucanos e vicentinos para as Minas. Portugal se alerta. Uma avalanche de mineradores, suas famílias e escravos a partir de 1705, faz o Reino tomar medidas restritivas, já em 1711. A imigração chega a 50.000 almas e chegará a quase 500.000 no terceiro quartel do século XVIII, quando Minas Gerais tem a maior densidade populacional da Colônia.

Profundas modificações administrativas, econômicas e sociais se processariam no Brasil, a partir das Minas Gerais. A Coroa, vislumbrando o significado da mineração - do "rico coração de ouro" que mais tarde também se descobriria num "peito de ferro" -  sobrecarrega a mineração com altas taxas fazendárias. Em 1702, cria o Regimento da Mineração e vincula a Intendência de Minas direto a Lisboa. É imposto o pagamento de um quinto da produção em taxa para a Metrópole. A Casa da Fundição, diz-se, impedirá o contrabando. Em 1711, é proibida a exportação ao produtor que não comprovar o pagamento do "quinto". A espoliação inquieta os mineradores. O ouro descoberto em Mato Grosso não provoca a mesma corrida. Seria trocar o certo pelo duvidoso.

Neste clima de euforia e ao mesmo tempo de perplexidade, vive-se nas Minas. Minas Gerais quando, em 1731, também produzirá diamantes. Tantos são os forasteiros  - os Emboabas -  tantas também são as acusações de contrabandistas aos mineradores que, nas tavernas e confrarias, o assunto domina. Discutem os mineradores, também estarrecidos, com a excessiva carga tributária. Movimentos de revolta se organizam. Na Guerra dos Emboabas, de 1707 a 1708, os vicentinos de Manuel Borba Gato se revoltam contra os intrusos liderados por Manuel Nunes Viana. Não se conformam em ver esta gente recém chegada a ganhar os mesmos quinhões das terras que tiveram a primazia de desbravar. Já a Revolta de Vila Rica (1720), em protesto ao quinto quitado da produção‚ é liderada por Felipe dos Santos Freire que foi enforcado e esquartejado1.

 

  

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

1   Mais tarde, em 1788, já com Filosofia Liberal Iluminista, a Conjuração Mineira, de Tiradentes, marco da nacionalidade brasileira, como causa próxima, assenta-se na espoliação da Metrópole. Até parece uma sina permanente, ver o Poder Central esconder a inépcia administrativa na carga

4 - Ocupação da Cisplatina

A colonização do Cone Sul-Americano, bipartido face ao Tratado de Tordesilhas, esteve dependente por longo tempo de três pólos: Salvador, através do distrito de São Vicente (depois do Rio de Janeiro), e os hispânicos, Buenos Aires e Assunção.

Consta terem os portugueses a primazia de fundear no rio da Prata em 1513, já os castelhanos, diziam tê-lo feito por João Dias Solis, em 1515. Ricas em detalhes diplomáticos, no entanto, é com a posse que se definiria a ocupação. Os espanhóis saltam à frente, fundam Buenos Aires em 1536, indo se concentrar em Assunção. Fica incólume essa imensidão de terras, desde a mais meridional vila portuguesa, São Vicente (1532), até as margens orientais do rio da Prata. Precárias são as condições de aportamento e outras são as riquezas a explorar alhures.

FUNDAÇÃO DE MONTEVIDÉU

Os portugueses puseram-se a ocupar estratégicas posições cada vez mais ao sul: Paranaguá, no início do século XVII, Curitiba e depois Santo Antônio dos Anjos da Laguna ocorrem em 1684. Avançam ousadamente e pretendem assentar-se num porto à margem esquerda do rio da Prata, Monte de São Pedro, local onde seria fundada Montevidéu mais tarde. A obsolescência do Tratado de Tordesilhas era um fato. Os lusos, também no interior do Continente, investiam com as entradas dos vicentinos. Assim, a questão dos limites teria de ser solucionada, ou por via diplomática, ou pelas lanças, bem ao gosto dos rusguentos ibéricos.

COLÔNIA DO SACRAMENTO UMA INVESTIDA AINDA MAIS OUSADA

Ao nível diplomático, o Papa Inocêncio XI dá um poderoso trunfo a Portugal, estendendo a jurisdição do Bispado do Rio de Janeiro até ao Prata (1676). Este fato enseja a que Manoel Lobo, em 1680, cumprindo determinações do Príncipe Regente D. Pedro, funde a Colônia do Santíssimo Sacramento do Rio da Prata. Os espanhóis se inquietam e numa imediata ação ocupam-na por sete meses2. Aí permanecem até 1681, quando um acordo com Felipe V, da Espanha, sob os auspícios de Luís XIV, em plena Guerra de Sucessão da Coroa castelhana, Portugal volta a dominar a Colônia do Sacramento3.

Em 1703, no entanto, Portugal alia-se à Inglaterra e retira o apoio dado a Felipe V. Novo ataque sofre esta Fortaleza  - o segundo. Tomada em 1705, só seria devolvida em 1716, após o Tratado de Utretch, agora sob o signo inglês. Cedem os espanhóis, porém a consciência castelhana da América jamais toleraria este avançado posto português.

Os portugueses preocupam-se em povoar a região. Facilitam a vinda de famílias, além de soldados. Os espanhóis entendem a estratégia de ocupação e fundam Monte Vidi4 em 1726. Era o contra-ataque tático dessa ocupação. E não tardam em desembarcar famílias de galegos para ocupar São José, um pouco mais ao nordeste de Colônia, circundando-a. Uma ocupação territorial com significado tanto para o plano econômico, como para o militar. Ocorre que o comércio do charque e couro era nascente e Colônia inserida entre dois postos hispânicos   - Buenos Aires e o recém fundado Montevidéu -   ficava imobilizada para qualquer ataque ou socorro do Centro do Brasil. Ambas as potências passam a disputar palmo a palmo a banda oriental do rio Uruguai.

Era mudar a diplomacia na Península Ibérica e esta região tornava-se um palco de hostilidades. Chega o ano de 1737, não podendo os portugueses ocupar Montevidéu, fundam Rio Grande, segundo plano de Silva Paes, referendado pelo Conselho Ultramarino, durante o reinado de D. João V, em que era Secretário de Estado, o Padre. Alexandre de Gusmão5.

RIO GRANDE UM PORTO MAIS SEGURO

Consta que Gomes Freire de Andrade, Governador do Rio de Janeiro, tão logo tomou conhecimento da implantação do presídio Jesus-Maria-José, segundo o estabelecido, providenciou sua consolidação. Assim embarcaram, dias após, naus com armas, munição, tropas, povoadores e suprimentos diversos, que somente no 1º dia de novembro de 1737 desembarcaram na barra do Rio Grande6. Depois se sucederam outros embarques semelhantes constituindo-se nos precursores do povoamento sistematizado do Continente do Rio de São Pedro.

  

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

2   D. Manoel Lobo, que enfermo passara o comando para o Cap. Manoel Galvão, resultou aprisionado nesta tomada, sendo conduzido a Buenos Aires, aí faleceu na maior penúria. Um verdadeiro mártir desta ousada ocupação.

 

3   O mais importante deste Tratado Provisional‚ foi o tácito reconhecimento deste domínio, inserindo-o aos lusos, eis que a demarcação pelo Tratado de Tordesilhas era questionada. Uma questão que interessava ao nível diplomático português, visto que aos geógrafos e matemáticos os limites deveriam estar suficientemente definidos.

 

 

 

 

  Monte Vidi, uma alusão ao monte de São Pedro (do Continente de São Pedro) que os portugueses tentaram, sem denodo, ocupar 3 anos antes. Local que seria a futura capital uruguaia.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

5   O plano de Silva Paes, tinha três pontos, a saber: expulsar os espanhóis de Montevidéu, que conquistaram em 1726; livrar a Colônia do Sacramento do cerco imposto por D. Miguel Salcedo, desde 1735, e fundar Rio Grande, para dar melhor suporte aos coloneses que a duras penas vinham resistindo. Objetivos militares justificados na nascente pecuária da região.

 

 

 

  Borges Fortes, em "O Brigadeiro José da Silva Paes e a Fundação do Rio Grande" menciona que nas embarcações comboiadas pela galera N. Sª. da Glória, navegavam 1 capitão, 1 alferes, 1 tambor, 38 soldados de Minas e 56 do Rio de Janeiro, todos para o novo Regimento de Dragões, comandado por André Ribeiro Coutinho, e mais 31 soldados para a artilharia. Iam também 67 pessoas de casais que se destinavam ao povoamento. ERUS, p. 95.

 

Particularmente importante o fato da fundação de Rio Grande, eis que com ela tem início a trajetória de JCF e sua progênie em terras sulinas da Colônia portuguesa.

 

5 - Ocupação Primitiva do Continente do Rio de São Pedro

O Continente do Rio Grande de São Pedro7, constituído pela região, desde a bacia do rio Uruguai até as margens orientais do estuário do Prata, esteve incólume da civilização do Velho Mundo, pelo menos até o século XVIII, quando Silva Paes funda o Presídio Jesus-Maria-José, na embocadura do rio Grande. Somente os silvícolas usufruíam recursos animais e vegetais que se multiplicavam dadivosamente. O difícil acesso, o aportamento impróprio afugentavam qualquer aventura desbravadora, a não ser por iniciativas isoladas. O pau-brasil, primeiro, açúcar, algodão e tabaco do nordeste, além do ouro e diamantes das Minas Gerais, para o Reino de Portugal eram a principal atração. Já os castelhanos se locupletavam com o ouro e a prata dos Incas e Astecas, além do tabaco e açúcar.

Ocorre, no entanto, que uma primitiva colonização se daria pelos jesuítas espanhóis. Foram duas regiões onde se localizaram os aldeamentos: o de Tapes e o do Uruguai8. Estes jesuítas vieram a partir dos ataques vicentinos às Reduções Paraguaias (1620). Os novos aldeamentos sofreriam iguais ataques, realizados de 1635 a 1641. Retirantes, mais uma vez, se alojariam na margem direita do rio Uruguai, aí formando as Missões Argentinas. Voltariam mais tarde, em 1687, para fundar os Sete Povos, com uma catequese mais organizada, sendo finalmente banidos, já em meados do século XVIII.

O que resultaria daqueles aldeamentos primitivos e abandonados, para a ocupação do Continente do Rio Grande? Primeiro, a presença lusa se impondo sobre a castelhana e, segundo, a disseminação do gado crioulo9. Gado esse que serviu, já no final do século XVII, de abastecimento de couro à Europa e ao Centro do Brasil. Para o Velho Mundo, arrebanhavam-se reses das Vacarias d'el Mar e, para o Brasil, concorriam as presas nas Vacarias dos Pinhais. O mesmo gado que se espalha e inspira Silva Paes a implantar a Fazenda Bojuru, em São José do Norte, e assim garantir subsistência à Fortaleza e cavalhada para as incursões militares.

Em se falando da ocupação primitiva do Continente do Rio Grande de São Pedro, há de se relembrar que, além dos jesuítas e das entradas dos sertanistas, quais já aduzidas, são os tropeiros em busca de gado e couro para consumo no florescente mercado das Minas, a partir de 1700, que têm uma contribuição importante. Claro está, com o desbravamento da terra trazem habitantes distintos dos bugres, herdeiros naturais até então. Paulistas e lagunenses atravessam o Mampituba e fixam-se nos campos de Viamão, São José do Norte e Tramandaí. Entre outros, Cristóvão Pereira (1727), João de Magalhães (1732), Francisco Pinto Bandeira (1734), aí faziam suas campeadas, a partir da Picada dos Conventos, aberta em 1727.

Na verdade, a política de ocupação do Continente do Rio Grande‚ decorrente do plano militar e não do plano econômico de colonização das coroas ibéricas. Portugal, através do Conselho Ultramarino, hesitava, mesmo ante propostas dos sertanistas que aí pretenderam incursionar. Foi no reinado de Dom João V (entronizado em 1706), que a colonização do Continente do Rio de São Pedro se tornaria sistematizada, quando o plano de Silva Paes, exposto em 1736, é aceito. Urdida assim, em objetivos militares, onde o interesse econômico era apenas uma justificativa e o interesse social uma decorrência, a colonização apoiou-se, sobretudo, na destemida gente que se dispôs a enfrentar as agruras do desbravamento, alojados em toscas moradias, enfrentando os silvícolas e o iminente confronto com os espanhóis.

 

  

 

  A expressão Continente, à época da colonização, designava terras contínuas, distintas das ilhas costeiras; Rio, consta ser a denominação dada à embocadura da barra da lagoa, único local aportável da costa meridional, por Martin Afonso de Souza, quando em 1531 fez sua viagem de reconhecimento ao Sul do Novo Mundo; São Pedro era uma homenagem a Pêro (Pedro) Lopes de Souza, seu irmão e piloto de uma das naus; finalmente, entremeou-se Grande a partir de 1550.

 

 

 

 

 

8   O aldeamento do Uruguai nas margens orientais do rio de mesmo nome e ao norte do rio Ibicuí; o de Tapes, mais a oeste, se estendendo pelo Vale do Caí, Serra dos Tapes e Serra Geral.

 

 

 

 

 

 

 

Gado bovino, muar e eqüino, chamado bagual, xucro e, também, chimarrão, criado sem qualquer sistematização, trazido pelos jesuítas a partir de crias obtidas com os jesuítas portugueses de S. Vicente e, mais remotamente, originário do rebanho ali desembarcado por Martim Afonso de Souza.

 

6 - Ocupação do Continente do Rio Grande de São Pedro

3ª INCURSÃO ESPANHOLA - D. MIGUEL SALCEDO - 1735

Passavam-se já duas incursões espanholas, tentando dominar a Banda Oriental ou Sacramento dos portugueses. Assim foi pela primeira vez, logo após a fundação, em 1680, apoderada até 1681. Na outra, em 1705, após a retirada do apoio português aos franceses e castelhanos, durante a questão dinástica, ao firmarem posse até‚ que pelo Tratado de Utrecht (1715), sob pauta inglesa, cedem os espanhóis.

Cederiam ao nível diplomático, porém a consciência dos castelhanos do Prata rejeitava esse acordo. Não desistem de rearticular a ocupação. Interpretando que o trato previa domínio da Colônia "até o alcance de uma bala de canhão", porém não disparada das fronteiras da Banda, até porque não estavam demarcadas, mas sim da Fortaleza ali estabelecida  - a Ciudadela para os castelhanos -  restringindo a ocupação lusa, fundam Monte Vidi. Nesse clima de rusgas, nova cisma. Agora, o pretexto‚ um incidente com funcionários da Embaixada lusa em Madri. Portugal e Espanha rompem relações, sem hostilidades na Península, porém Colônia novamente seria alvo do espírito rixento dos ibéricos. E assim, pela 3ª vez, agora‚ o Governador de Buenos Aires, D. Miguel Vertyz y Salcedo, investe contra a Fortaleza de Colônia a qual, em heróica resistência, oprimida pela limitada reserva de mantimentos e munições, se mantém durante 23 meses. Cessa o ataque face ao acordo de Paris de 1737.

Muita coisa mudava nessa ofensiva. Os portugueses, que procuravam consolidarem-se no Sacramento, retiram-se com seus familiares para erguerem Rio Grande e Viamão10. A estratégia permanece: ocupar terras colonizando-as e fundar fortalezas no suporte militar. Chega o ano de 1750, Portugal defende o princípio de ut possidetis para garantir seus domínios no Sul e Centro-Oeste da América, novo tratado de limites, o de Madri, centrando-se nas fronteiras naturais até onde chegara o seu domínio. Revogado definitivamente o antigo Tratado de Tordesilhas, fica a Espanha com a Banda Oriental e Portugal, com as Missões, no Sul.

Acalmados os ânimos, lançam-se os peninsulares em ação conjunta na demarcação da fronteira. Gomes Freire atuaria de Castilho Grande (Uruguai) até o rio Santa Maria, e seguindo o rio Ibicuí. Trabalho árduo, de abertura de picadas em mata nativa, um desafio a cada passo. E as dificuldades aumentaram quando se viram atacados pelos Tapes. Agindo de forma conjunta, tropas luso-castelhanas trucidariam os catequizados silvícolas, instigados pelos jesuítas que, segundo pensamento do Marquês do Pombal, mantêm pretensões de conquistar terras, aqui e no Amazonas, em favor dos Estados do Vaticano. Em desigual luta, de 1754 a 1756, morre o legendário Sepé Tiaraju e também, no combate final, Nhanguiru. O comissário português, Gomes Freire, considera o trabalho de demarcação atrapalhado e se recusa a tomar posse das Missões em circunstâncias precárias. Desconfiam os espanhóis ser apenas artimanha para não entregarem o Sacramento. Desconfiam os portugueses que os jesuítas espanhóis são aliados dos castelhanos. A demarcação é abandonada em definitivo.

Era plena Era Pombalina. Marquês do Pombal11, temendo a ação dos jesuítas, gestiona junto à Espanha e ao Vaticano o banimento desses clérigos das terras do Novo Mundo e Península Ibérica, os quais seriam acolhidos na Alemanha especialmente. Primeiro saem os do Paraguai, em 1755, seguidos pelos do Brasil, em 1759.

 

4ª INCURSÃO ESPANHOLA - PEDRO CEVALLOS - 1762

Na Europa, desde 1756, França e Inglaterra estão envolvidas na Guerra dos 7 Anos. Os Bourbons estavam no trono de vários estados: na França de Luís XIV, Espanha, Nápoles, Parma e também em Portugal. Havia como um pacto dinástico entre esses reinos. Portugal mantém aliança com os ingleses. Isto põe lusos e castelhanos mais uma vez antagônicos. A América entrará em luta.

Os espanhóis, por Pedro Cevallos, atacam a Colônia do Sacramento (1762) e avançam para Rio Grande (1763). Ocupam antes Santa Teresa e São Miguel (Uruguai). Os soldados de Tomás Luís Osório, no comando destes destacamentos, batem em retirada com moral destroçada, trazem pânico a Rio Grande. Viamão foi o destino da população civil, face ao ataque iminente. Rio Grande fica sob o domínio espanhol até 1776, muito embora, já no ano de 1763, pelo Tratado de Paris, a paz fosse restabelecida. O Governo luso-brasileiro se instala em Viamão e Rio Pardo. Mas a imprudência de Cevallos em não ceder Rio Grande, determina, mais uma vez, que seja pelas armas o impasse resolvido.

 

5ª INCURSÃO ESPANHOLA - JOAN JOSÉ VERTYS Y SALCEDO - 1773

Os portugueses se organizam militarmente, precisam retomar Rio Grande. O Gen. João Böhm12 passa a comandar as tropas que fariam a reconquista, reforçadas por militares recrutados no Rio de Janeiro, Minas e São Paulo, além, é claro, do contingente ali sediado13, mas insuficiente ante o poderio imposto pelo invasor. José Marcelino de Figueiredo14 tem o Comando central. José Carneiro da Fontoura comanda o contingente de Dragões do campo ulterior de Rio Pardo. Também o reforço naval foi providenciado, o cap. Mac-Douall, irlandês a serviço de Portugal, comandava a esquadra do Sul que contava com mais forasteiros, o comandante Hardcastle, entre outros. Sem dúvida, a maior operação militar do Brasil Colônia.

Em 1773, no entanto, JJ Vertyz y Salcedo invade pelo vale do rio Negro e, em suas cabeceiras, funda Santa Tecla. Investe rumo a Rio Pardo. Rafael Pinto Bandeira e Cipriano Cardozo, com o apoio de José Carneiro da Fontoura, usando táticas de guerrilha, detêm este ataque, primeiro no passo de Camaquã, depois no arroio Santa Bárbara e, finalmente no arroio Tabatingaí, nos pantanosos campos de R. Pardo. Esta operação  - Retardadora -  planejada por Marcelino de Figueiredo, visava a embaraçar o reforço espanhol em apoio a Rio Grande ocupada. Em 1777, Rafael Pinto Bandeira toma o Forte de Santa Tecla. Rio Grande reconquistada no ano anterior, não significava derrota definitiva ao invasor decidido.

A bravura do continente de Dragões constituído pela 2ª geração dos precursores da colonização, e o seu desempenho militar no resguardo da Fortaleza de Rio Pardo, foram por demais significativos para a reconquista de Rio Grande e valeu àquela Vila a denominação até hoje ostentada com orgulho: Tranqueira do Rio Grande.

 

6ª INCURSÃO ESPANHOLA - CEVALLOS EM SANTA CATARINA - 1777

Cevallos revida, após a perda de Rio Grande e ataca S. Catarina, com poderosa frota de 116 navios, 13.000 homens. Rio Grande via-se novamente ameaçada e Colônia do Sacramento‚ submetida ao 5º ataque. É destruída e seu porto obstruído.

Morre D. José, fim da Era Pombalina, a política de Dona Maria I possibilita o arrefecimento dos ânimos. A Inglaterra, que saiu fortalecida da Guerra dos 7 Anos, passa por significativas mudanças. Está em andamento sua Revolução Industrial. As colônias inglesas da América lutam pela independência. E é essa Inglaterra que entende precisar de harmonia interna, para melhor ajustar-se às profundas transformações sociais, e da paz mundial, para melhor colocar seus excedentes de produção. Assim, sob sua pauta, intermedeia o armistício entre os ibéricos e, por extensão, a paz no Sul do Continente americano.

Novas gestões em nível diplomático. Surge o Tratado El Prado, que anula os efeitos do Tratado de Madri, porém de efêmero efeito. Novo tratado em 1777, o de Santo Ildefonso, tomando os mesmos princípios do de Madri. Mais uma vez a questão da fronteira (Sul)‚ resolvida. É injusto, diz a consciência colonizadora sulina, relutando quanto ao acordo diplomático. Ficam sem o Sacramento e sem as Missões, embora, com o Centro-Oeste, Portugal tenha duplicado seus domínios. Novas demarcações que também seriam interrompidas15.

 

  

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

[10]              Serão os precursores da grande retirada que iria ocorrer entre 1763 a 1777, quando se mudam para a região da Coxilha Grande, na cabeceira do rio Negro (Piratini, Pinheiro Machado, Pelotas, Canguçu).

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

[11]              Secretário de Estado de Dom José I, homem de ferrenha força de vontade e hábil estadista, muito controvertido, dominou todo o reinado. Prepotente, era implacável na perseguição aos adversários. Considerado um dos "Déspotas Esclarecidos", isto é, capaz de lançar mão de todos os meios políticos, desde que os considerasse em benefício de seu povo, com idéias pretensamente fundamentadas no Iluminismo nascente. Entre os Déspotas estão José II, da Áustria, Catarina II, da Rússia, Frederico II, da Prússia, e Carlos III, da Espanha.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

12   João Henrique Böhm, general que serviu a tropa lusa, quando o Conde Guilherme de Lippe, também alemão, organizou esse exército durante a guerra contra a Espanha e França. Consta que, ao acampar as margens setentrionais do rio Grande, seus comandados chegaram a 6.000 homens.

13   Faziam parte do contingente de Dragões, gente que formou os troncos da gênese rio-grandense, entre eles, os Pereira Pinto, os Pinto Bandeira, os Carneiro da Fontoura, os Corrêa Câmara, os Menna Barreto, os Amaral Sarmento Menna, os Azambuja, os Oliveira Guimarães, os Charão. (Conforme Walter Spalding, citado em Vol. II, Anais do Simpósio Bicentenário Restauração de Rio Grande, p.609).

14    J Figueiredo, oficial português, cujo nome verdadeiro era Manuel Jorge Sepúlveda, face incidente com oficial inglês, veio para o Brasil, Rio de Janeiro e, após, para o Rio Grande.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

15   A Comissão Demarcadora contou com o notável trabalho de José Saldanha e Joaquim Félix da Fonseca Manso.

 

 

Esse lutar sem trégua fez dos primitivos habitantes marcar com bravura o chão conquistado.

E da conquista, que era das coroas ibéricas, resulta uma consciência politizada desde os troncos seculares formados por trás-montanos, madeirenses, açorianos, lusos em geral.

   Uma consciência também politizada pela exuberância de transformações que experimentava a Europa.

 

7 - Contexto Mundial no Século XVIII

Foi a partir de 1775, enquanto o mundo vive profundas modificações políticas e ideológicas, que surge nova ordem econômica. Formam-se os grandes impérios capitalistas em substituição ao colonialismo mercantilista. Surgem as teorias liberalistas, combatendo o absolutismo iniciado com Richilieu, em 1610, cujo apogeu esteve com Luís XIV, em 1715. Assim iriam florescer, com o nacionalismo, de 1815 a 1886, os estados modernos europeus (e americanos). Por exemplo, deixa a Espanha de influir na Alemanha e Países Baixos. Tal nacionalismo fundamenta a unificação política dos povos de mesma cultura. Já o imperialismo aglutina nações que não conseguem delinear suas próprias políticas, em torno de uma monopolista. De outra doutrina, o comunismo, através de mudanças, preceitua a igualdade econômica e social.

Que fatores relevantes determinariam tão profundas transformações? Admitem-se dois fundamentalmente, a Revolução Industrial, na Inglaterra, e o Iluminismo, especialmente o francês (e mais remotamente o Renascimento e a Reforma).

 

A REVOLUÇÃO INDUSTRIAL

Ao pôr fim à Guerra dos 7 Anos, a Inglaterra sai fortalecida. Domina os mares e está em franco desenvolvimento o seu processo de industrialização, para o qual a Europa só acordaria no início do século seguinte. A indústria ganha, então, vários mecanismos que lhe propiciariam um descomunal salto de produção. O alto forno à hulha em 1709, o tear mecânico em 1722, a fiação do algodão em 1764, a fabricação de aço em 1784, a máquina a vapor em 1776 e 1782. A volumosa produção requer nova frente de comércio, pois a interna fica saturada. Em exemplo, os tratados comerciais com os portugueses propiciam a colocação do tecido inglês nas colônias lusas em troca da importação do vinho do Porto, com a taxa alfandegária de um terço da estipulada ao vinho francês; noutro exemplo a mais, o Brasil tem proibida a implantação de indústria têxtil que não seja para fardos e vestimenta dos escravos.

A nobreza elitista européia tem, na posse da terra, seu trunfo. Surge uma classe poderosa, a dos comerciantes, eis que com dinheiro compram também seus títulos de nobreza. Uma aristocracia que, visando à atividade lucrativa deixa a ociosidade e a exploração do trabalho escravo, o qual passa a ser remunerado. O feudalismo começa ceder ante os emergentes pólos burgueses. Adam Smith, chocando o pensamento francês dominante, qual seja, apenas na atividade primária, especialmente na agricultura, está a mais significativa fonte de riqueza, prevê que a indústria iria monitorar as sociedades modernas, tornando-se a principal fonte do trabalho produtivo. E como assim se confirmou, começa a população urbana a crescer mais que a rural16

 

O ILUMINISMO

Concomitante com o liberalismo inglês, o movimento de intelectuais franceses, notadamente o Iluminismo, expresso pelos enciclopedistas, espalha por todo o planeta idéias de liberdade, igualdade e fraternidade. Rousseau, Montesquieu e Voltaire, além de Diderot e D'Alambert, são os mais notáveis. Firma-se o desenvolvimento científico: racionalismo, empirismo, pragmatismo17.

A Filosofia das Luzes se fundamenta no tripé liberdade-igualdade-fraternidade. Assim, o peso de um segmento social é mais relevante que uma liderança. Esta, se forte, deixa de ser despótica, caudilhesca, para em função do povo e somente dele emanado, estabelecer a melhor estratégia de ação na busca do bem comum. Interpretar o que o povo quer, substitui ao que o líder, por um enfoque subjetivo, deseja para seu povo.

Tal assim o foi (e é) que o próprio Império Napoleônico (1796-1815), nascido em meio à Filosofia da Ilustração, seria vítima de sua própria expansão. Ora, num momento em que o nacionalismo se firmava, povos de culturas diversas estariam sendo subjugados a ideais não geminados em seu seio. E mais, num erro que Hitler, já no Século XX, não soube captar: quis dominar o mundo num só lance. A vida de uma nação não tem a duração da de um líder.

Enfim, a obra legada pelos enciclopedistas, designa o século XVIII por Século das Luzes, pois sistematiza todo o conhecimento humano e entrega-o desmistificado, ao alcance de todos indistintamente. Desde o Renascimento, ao mesmo tempo em que aflorava o racionalismo, o homem sentia-se confuso, sem distinguir com clareza o que era da ciência, da filosofia e da religião.

 

NOVO CONTEXTO MUNDIAL

Com essa ordem de pensamento difundindo-se em todo o mundo ocidental, de 1775 a 1848, registram-se importantes fatos considerados marcos da nova estrutura social política e econômica mundial:

  • a independência das 13 Colônias - Estados Unidos;
  • a Revolução Francesa;

  • a descolonização da América espanhola e depois também do Reino do Brasil;

  • a formação dos estados modernos (nacionalismo).

Com a Revolução Francesa, 1789-1799, marco inicial da Idade Contemporânea, simboliza-se a transformação do que se processará no Século XIX:

  • a política liberal burguesa e radical democrata, obturando o absolutismo e feudalismo;

  • a substituição da economia mercantilista agrária pela industrial; e

  • a substituição do sistema colonial pelo imperialista.

 

  

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

16  Alvin Tofler, em 1990, referir-se-á a este momento da História  - a Revolução Industrial -  como a 2ª onda. A 1ª onda reservou à agrária e a 3ª, correspondendo à terceirização da economia.

 

 

 

 

 

 

 

 

17 Desenvolvimento científico que, no Renascimento teve a descoberta do infinito do Cosmos com Copérnico (1473-1543); a lógica da experiência de Bacon (1561-1626); a distinção entre filosofia, ciência e religião, de Galileu Galilei (1564-1642); certeza intelectual e a metafísica de Descartes (1596-1650), considerado o "pai da filosofia moderna", inspirando a Spinoza, Leibniz, Kant, Hegel, entre outros; a certeza da experiência de Pascal (1623-1662); a busca de uma teoria unificada de Sir Isac Newton que, em 1687, publicou os Princípios Matemáticos da Filosofia Natural, trabalho marco no campo das ciências.

 

 

 

 

 

 

 

8 - A Consciência Brasileira no Século XVIII

A sociedade está assim constituída: mestres-escolas, médicos, advogados, clérigos, funcionários, militares, tropeiros, comerciantes e escravos. A mineração fomentou a produção rural. É, neste século, descoberta a eficiência dos pampas platinos, fazendo os vicentinos intensificarem a comercialização de mulas, jumentos, cavalos e carne seca. Os cariocas comercializam utensílios domésticos e de mineração. Os funcionários nas juntas de governo (Câmara e Fazenda), senados de comarca (municípios e vilas) e os militares (Dragões e Ordenanças) na defesa do território, contra os índios, os estrangeiros e na manutenção da ordem. Os senhores rurais, em seus domínios substituem o poder constituído. Em 1759, com o banimento dos jesuítas, o sistema de ensino desagrega-se e será repensado.

O comportamento de Portugal, durante a Guerra de Sucessão da Espanha, dúbio, desprovido de política própria mais profunda, gera hostilidades dos castelhanos e franceses e ainda dependência econômica à Inglaterra. Aliás, uma condizente política a orientar suas ações parece ausentar-se desde a União das Coroas Ibéricas (1580), com Felipe II, ou até mesmo, após o reinado de Dom Manuel.

O absolutismo português, iniciado com D. João V, do Padre Alexandre de Gusmão, atinge o auge com D. José, do Marquês do Pombal, traz para todo o Reino do Brasil, significativas mudanças:

  • a subjugação do clero que, com o expurgo dos jesuítas, altera o processo de ensino;

  • os acordos de Portugal com o Inglaterra, contrários ao sentimento nacional, determinam movimentos anticolonização e antipatia à Inglaterra;

  • a pesada carga fazendária imposta aos colonos, reforça o sentimento Liberal tão em moda na Europa.

A vinda da Família Real, em 1806, vista como promissora ao desenvolvimento colonial do Brasil, tantos serão os benefícios arrolados, pode ser pensada também como um fato inibidor do processo emancipacionista brasileiro. Assim foi, que da Inconfidência Mineira (1789) à Independência (1822), via-se a Colônia obscurecida em seus ideais Liberais pela ótica fascinante de conviver com tão ilustres hóspedes.

Em especial, no extremo sul da Colônia, o vetor que determinava a ação era a posse da terra. Justa e empolgante fora esta ação que, em conjunto com a dos bandeirantes, hoje o Brasil orgulha-se de sua vasta extensão territorial. Um potencial de riquezas inesgotáveis18 que, uma vez descoberta pela consciência nacional propiciará o tão almejado destaque entre as mais poderosas do universo. A égide do espírito bélico que norteava os vizinhos ibéricos do século XVIII, foi mais uma vez reforçada com a vinda da Família Real. D João e D. Calota Joaquina19 acedendo à política de ocupação, propiciam incursões no Norte e no Sul.

Politicamente, o Brasil tornar-se-á independente, mais por força da nova ordem mundial do que por maturação da Consciência Nacional20. E o brado retumbante dessa brava gente em busca de um ideal imanifesto, é tão somente definir um norte a partir de suas próprias raízes e, sem desprezar a experiência de outras nações, não imitá-las. É oportuno lembrar a queda do colonialismo: embora uma tendência natural, pois os sistemas sócio-econômicos se obturam de per si, vaguearam os ibéricos, sem nada conservar, e o oportunismo que inspirou os franceses e ingleses, quando emergem ante o poderio econômico então detido pelos luso-castelhanos. Oportunismo não ditado pelo desgaste a que se submeteram os colonizadores sul-americanos, mas por terem os emergentes, luz para definir seus destinos ante a nova ordem que se avizinhava, e principalmente, partindo de suas características étnicas e de suas realidades sociais.

 

 

[18   Talvez, exatamente, pela superabundância de recursos (toda a necessidade é suprida sem sacrifícios) associada ao centralismo e paternalismo do Governo Central que avilta a consciência de cidadania  - o indivíduo passa a ser um consumidor de direitos sem valores ao dever  - faz a maturidade política vacilar, por longos anos, sem jamais ter vencido o permanente estado de crise econômica e social. Benquistas riquezas, lastimável tão somente sua disponibilidade.

19   D. Carlota Joaquina de Bourbon (filha de Carlos IV, hóspede forçado de Napoleão, e rei da invadida Espanha), consta que pretendia estabelecer uma nova regência sobre toda a América espanhola. A Banda Oriental era o mais próximo alvo.

20   Sem dúvida, oriundo de um espírito beligerante associado ao liberalismo e filosofia iluminista, cria-se uma mentalidade semipolitizada, elitista, sem vivência na industrialização que aspira. Os senhores rurais tendem a agir em face de seus interesses, nem sempre ao encontro da coletividade nacional. A sociedade como um todo, em permanente busca de um líder, se aplacará, desnorteada. Os partidos políticos arregimentarão seus correligionários em função do poder e não de ideais. Ideais que somente constarão dos esquecidos programas partidários, apenas sustentados nas siglas convenientemente arranjadas.

 

BIOGRAFIAS E LINHAGENS SECULARES

1 - BIOGRAFIAS

ALENCASTRO CARNEIRO DA FONTOURA

ALEXANDRE JOSÉ DE QUEIROZ E VASCONCELOS - O QUEBRA

ANTÔNIO MANOEL CORRÊA DA CÂMARA - SARG.-MOR

ANTÔNIO PAULO DA FONTOURA

ANTÔNIO VICENTE DA FONTOURA

BENTO JOSÉ CORRÊA CÂMARA - TEN-GEN.

FRANCISCO BARRETO PEREIRA PINTO

FRANCISCO PINTO DA FONTOURA

JOÃO DE DEUS MENNA BARRETO - VISC. SÃO GABRIEL

JOÃO MANOEL MENNA BARRETO

JOÃO NEVES DA FONTOURA

JOÃO PROPICIO DE FIGUEIREDO MENNA BARRETO

JOÃO SIMÕES LOPES FILHO - VISCONDE DA GRAÇA

JOSÉ CARNEIRO DA FONTOURA

JOSÉ SALDANHA

OSCAR CARNEIRO DA FONTOURA

PATRÍCIO JOSÉ CORRÊA CÂMARA

SEBASTIÃO BARRETO PEREIRA PINTO

 2 - FAMÍLIAS (Inconcluso)

SIMÕES PIRES

 

 

Lebreu-_Arte_Final_2-_Vinheta

Qual lebrel, o obstinado contendor dos opressores, atrelado, repousa à sombra da amoreira, que lhe dá abrigo, porém, atilado aos acontecimentos, que jacentes ainda fustigam a paz conquistada.

ALENCASTRO CARNEIRO DA FONTOURA

 

Alencastro filho de Alexandre Carneiro da Fontoura1 e de Izidra Carolina Barros (sua primeira esposa), nasceu em Dom Pedrito. Descendente em 5ª geração de JCF, através de José Carneiro da Fontoura e de Pedro José e seus descendentes. Este se assentou nas imediações de São Sebastião, nos avançados campos de Bagé, que para aí foi no ano de 1807. Alencastro foi casado com Maria Francisca Oliveira de Macedo, tendo o casal 5 filhos.

Desenvolveu atividades militares e na política, sendo eleito deputado à Constituinte de 1891. Talvez, sua maior contribuição para a sociedade seja a implantação, em Dom Pedrito, de um asilo e de uma creche que levam, respectivamente, o seu nome e o de sua esposa. Em sua memória, a Cidade também denominou a rua por onde se localiza o asilo de Maj. Alencastro Carneiro da Fontoura.

Consta ter falecido ao receber a notícia de sua promoção a Major.

 

 

 

 

 

 

 

 

1   Alexandre, republicano, assumiu a Intendência de D. Pedrito em 1890, em oposição aos Liberais e Conservadores ortodoxos, por decisão de Júlio de Castilhos, logo após a Proclamação da República. Foi casado em segundas núpcias com Francisca Lopes Formoso, daí resultando 1 filho Oscar Carneiro da Fontoura, também com sinopse biográfica.

 

 

ALEXANDRE JOSÉ DE QUEIROZ E VASCONCELOS[*1]

ALEXANDRE LUIZ DE QUEIROZ E VASCONCELOS

 - O QUEBRA

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 ...

 "Entre os quinze filhos de Francisco Barreto encontramos Maria Eulália Pereira Pinto que casou, no Rio Pardo, com o tenente de dragões Alexandre Luiz de Queiroz e Vasconcelos, nobre senhor das casas de Queiroz e de Amarante, de comprovada fidalguia e incomparável bravura.

 "Foi o tenente Alexandre Luiz de Queiroz homem de cultura, grandes aptidões militares que lhe valeram ser, no Rio Pardo, um dos republicanos da governança. Teve campos de criação na Cachoeira, sendo o primeiro sesmeiro do Quartel-mestre, em parte do qual está hoje edificada esta cidade. Morreu em 1790 deixando onze filhos dentre os quais destacaremos Alexandre Luiz, o Quebra de alcunha, e Maria do Carmo Violante.

 "Alexandre Luiz, o filho, é um tipo singular na história do Rio Grande. Seria talvez se outras fossem as condições do meio o único caudilho gaúcho, na lata acepção do termo. Soldado de dragões, no Rio Pardo, muito moço ainda, atacado por um contrabandista, mata-o a golpes de espada. Para evitar o castigo que o espera, deserta. Vai para a Banda Oriental. Aí tem contato íntimo com essa admirável organização caudilhesca de secretário da liberdade que é Artigas. Influencia-lhe profundamente o caráter a dialética oriental. E torna-se um insubmisso, homem livre, no pampa livre. Nem Deus, Nem Rei. Como se processa nesse caráter altivo a transformação radical, nesses tempos obscuros da nossa história, impossível dizê-lo.

 "Em 1801, declara guerra à Espanha, é um dos desertores heróicos que, com outro, José Borges do Canto, conquista em poucos dias as Missões. Indultado, volta como furriel à sua companhia no Regimento de Dragões. Mas por pouco tempo. Um alto objetivo norteia-lhe os passos. Será o precursor da liberdade, o vanguardeiro da idéia nova que, trinta e cinco anos mais tarde, tingirá de sangue as cochilas gaúchas. No mesmo ano, voltando de Missões, congrega alguns companheiros e vai à guarda de S. Francisco, tentando ali revoltar a guarnição.

 "Fala em república, em liberdade, em coisas inacreditáveis para a época. Quer ligar o Rio Grande ao Uruguai por laços federativos. Uma pátria sem rei.

 "Perseguem-no. Alguns escravos a que prometia a liberdade o seguem. Dominado, depois de larga resistência, é preso, posto a ferros.

 "Seus parentes, poderosos no tempo, Barreto Pereira Pinto e principalmente seu tio Corrêa da Câmara, o primeiro Visconde de Pelotas, que entrara na família, conseguem um atenuante para o crime: é oficialmente considerado louco, `mente insana' dizem os documentos da época. E assim, passa trinta anos no cenário que irá assistir aos seus feitos heróicos.

 "Anos depois, nas campanhas de 16 a 20, vemo-lo tenente, capitão, sargento-mor de milícias, no Regimento Entre-Rios, sendo a maior lança do corpo de guerrilhas que comanda. Pelo destemor, pela bravura, pelo desapego à vida, é formidável, às vezes. Seu nome, com a legenda dos maiores heroísmos de que é capaz um homem, se repete em todas as páginas escritas sobre aquelas campanhas. Tem no combate todas as durezas mas, vencedor é magnânimo. Alexandre Luiz destaca-se singularmente em ações onde todos são denodados e admiráveis. Seu nome infunde respeito ao inimigo e passa à história aureolado pela bravura.

 "Em 1820, o Quebra vai à Cachoeira. Procede a fama de seus feitos. Entra em confabulações com as autoridades. Quer fazer uma grande revolução, libertar os escravos, proclamar a República do Rio Grande, unindo-o ao Uruguai.

 "Gente simples, timorata, todos o recebem com pavor. cercado de alguns escravos, investe contra a cadeia, toma-a sem grande resistência. Manda tocar à degola nas caixas de guerra. Mas, não mata ninguém... Arroga a si poderes de ditador. A seu liberto, Pedro, companheiro de todos os tempos, dá o posto de comandante da Vila. Vai à casa do comandante deposto, veste o negro com fardão, põe-lhe à cabeça o tricorne e na mão o bastão daquela autoridade e fá-lo passear pelas ruas, como símbolo de igualdade...

 "Perseguido de novo, preso, acorrentado, é remetido para a sede da Capitania com um ofício de Corrêa da Câmara dizendo ser o seu parente louco varrido, `mente insana'.

 "No Rio, para onde é mandado com recomendações especiais, consegue, como maçom, interessar a D. Pedro I. E volta para o sul, indultado. Comete novas tropelias tendo por idéia fixa a liberdade dos escravos, a república, a separação do Rio Grande.

 "Em 27, quando da batalha do Passo do Rosário, apresenta-se a Alvear que o faz coronel de um suposto regimento de Libertadores do Rio Grande. E combate contra os brasileiros. Historiadores há que o apontam de traidor...

 "Em 1830, em outro acesso de loucura pela liberdade, apresenta-se um dia em Caçapava, vilarejo pacato, ponto estratégico principal do Rio Grande. Dirige-se aos escravos. Grande número deles ouve as sedutoras promessas de Quebra. Fala-lhes em nome de princípios humanos, república, liberdade, igualdade, fraternidade. Esboça-se a rebelião.

 "Atônitas, as autoridades fogem do povoado. Uma partida forte de dragões, mandada da Cachoeira, começa a persegui-lo. Anda pelos matos. Com seu indefectível Pedro, heróico companheiro de lutas, atravessa o Rio Grande, rumo ao Uruguai.

 "Morre em 1833. Predecessor admirável dos farrapos, não chegou a ver, tremulando, nos ângulos do Continente, o `pavilhão tricolor'. Passou à lenda como traidor e louco. A mentalidade do tempo, a história um dia far-lhe-á justiça."

 

 

 

 

[*1]              Reprodução no Correio do Povo, de 01-03-80, artigo Os Flores da Cunha, de Aurélio Porto, de trabalho publicado no anuário Geográfico Brasileiro, Ano IV, 1942, São Paulo, p 337-350.

 

ANTÔNIO MANOEL CORRÊA DA CÂMARA - SARGº.-MOR

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Antônio Manoel nasceu em 1783, na nova vila de Rio Pardo, um importante posto militar, então chefiado por seu pai, que os luso-brasileiros fundaram para enfrentar os castelhanos. Um dos bisnetos de JCF, através de sua sexta filha, Angélica. Filho de Patrício José Corrêa Câmara, 1º Visconde de Pelotas e de Joaquina Leocádia da Fontoura.

Estudou em Lisboa, no Colégio dos Nobres, um estabelecimento padrão e muito procurado por gente das colônias lusas de além-mar. Concluindo seus estudos, viaja pela Europa e também para a Índia. homem de elevada cultura.

Dante Laytano informa, ainda, que Antônio Manoel retornou ao Brasil, em 1822, logo se associando ao movimento da independência. Foi ocupar o cargo de Cônsul do Brasil em Buenos Aires, depois foi para o Paraguai em iguais funções, retornando em 1829. Na Epopéia Farroupilha, abraça a causa revolucionária. Chefiou os serviços de Estatística no Rio Grande do Sul. Viveu seus 65 anos, solteiro, levando uma vida orientada para o intelectual. Em 30 de junho de 1848, na cidade do Rio de Janeiro é encontrado morto.

 

  

ANTÔNIO PAULO DA FONTOURA

 

Antônio Paulo, conhecido por Paulino da Fontoura, nasceu no ano de 1800 e faleceu assassinado em Alegrete1 aos 43 anos, solteiro. Filho de Antônio Pinto da Fontoura e de Eufrazia Luiza de Lima, sua segunda esposa. Foram 8 os filhos de Antônio Pinto da Fontoura, sendo 4 do segundo matrimônio. Paulino da Fontoura corresponde a terceira geração de JCF, através de sua 6ª filha, Angélica. Paulino era irmão de Francisco Pinto da Fontoura2.

Eleito suplente à Constituinte Farrapa e quando assassinado era, também, Vice-Presidente da República Rio-Grandense. Além da política, corria-lhe fácil a inspiração poética. Feito revolucionário de primeira hora, representava junto com Vicente da Fontoura, Onofre Pires, Lucas de Oliveira, entre outros, uma espécie de oposição. Defendiam que ante tão desgastante luta e já tendo parcialmente alertado aos donos do Poder Imperial, com sua política fiscal escorchante, espoliativa, que já era chegado o momento de estabelecer uma tática para uma paz honrosa.

 

  

 

 

 

  Sobre o assassinato de Paulino, Alfredo Varela, citado por Dante Laytano, em História da República Rio-Grandense, diz "O ciúme armou o braço de um marido incomplacente e o escritor enamorado pagou, a 13 de fevereiro, com a vida, as flores que até então colhera, sem risco ou enfado algum".

 

2   Francisco, o Poeta dos Farrapos, autor do Hino Farroupilha. (Vide sinopse Biográfica)

 

ANTÔNIO VICENTE DA FONTOURA

 

Nascido em 16 de junho1 e batizado a 12 de julho de 1807, em Rio Pardo e falecido em Cachoeira do Sul, a 20 de outubro de 1860, vítima de ferimentos recebidos na estúpida agressão de 8 de setembro, pelo escravo liberto Manoel Pequeno, a mando de adversários políticos. Filho de Eusébio Manoel Antônio, natural de Lisboa, e de Vicência Cândida da Fontoura, natural de Rio Pardo, que foi neta materna de JCF, através de Jerônima Veloza da Fontoura.

Vicente da Fontoura casou em Cachoeira do Sul, com Clarinda Francisca Porto, filha do Ten. José Gomes Porto e de Luísa Francisca de Almeida. Consta que seus filhos foram 14. Entre sua numerosa descendência arrola-se a família Fontoura Xavier. Quanto aos locais em que mais se encontram seus descendentes, embora as informações não sejam completas, anotam-se Cachoeira, Porto Alegre e Rio de Janeiro.

Em Dante Laytano2 encontra-se uma concisa biografia deste ilustre ativista da causa Farroupilha. "Comerciante, homem público e militar, guardou a honradez como seu traço predominante. Homem de posses. Vereador duas vezes, Procurador Fiscal, Juiz de Paz, Juiz Superior em Cachoeira, onde exerceu toda a sua atividade desde jovem. No Exército Revolucionário, foi major de Legião. Eleito deputado à Constituinte da República. Ministro da Fazenda, teve uma ação brilhantíssima, salvando a Revolução da ruína e resguardando os cofres públicos. Seu maior papel em 35 foi o de embaixador da paz."

Como tribuno, no ardor dos polêmicos pronunciamentos, ao lado de Paulino da Fontoura3, na Assembléia da efêmera República, chamava à reflexão os revolucionários. Um ambiente de ecléticos oradores. Representavam os Fontoura além de Martins Coelho, Lucas de Oliveira, Onofre Pires, uma "oposição" a Domingos de Almeida, Serafim Alencastre, Sebastião Menna Barreto, Mariano de Matos entre outros. Essa oposição, mais resultado de uma postura consciente, do que levada pela animosidade vivida nos tensos dias da Revolução - soube ele antever precocemente os destinos da revolução -  talvez lhe tenha valido dissabores e incompreensões de seus comparsas.

Segundo o Diário de Antônio Vicente da Fontoura4, abrangendo o período de 1º de janeiro de 1844 a 22 de março de 1845, com notas de Alfredo Ferreira Rodrigues, pode-se penetrar mais profundamente em seu caráter. Comenta o ensaísta:

"Aqui e ali, esparsas, há frases que descrevem bem ao vivo uma situação que desempenha, vigorosamente um caráter numa observação cheia de argúcia, ou que revelam as preocupações de ordem moral e social que lhe enchiam as horas de meditação sobre a desgraça da pátria.

"Fontoura ao iniciar seu Diário, estava imbuído das idéias arraigadas do espírito de quase todos os rio-grandenses da revolução.

...

"... em começo de 1844, acreditava firmemente na vitória da república, esperando todos os dias a oportunidade de um combate em que os imperiais fossem esmagados.

"E' interessante acompanhá-lo, através das páginas do diário, em esperanças a princípio, depois a dúvida e finalmente ao irremediável desengano, que o levou à convicção de que só a paz, feita com honra e tratada a tempo, poderia salvar o Rio Grande do desastre de sangrenta derrota e da agonia de submissão incondicional.

...

"A 27 de fevereiro (1945), batiam-se em duelo Bento Gonçalves e Onofre Pires, saindo este ferido e vindo a morrer dias depois, em conseqüência da gangrena sobrevinda ao ferimento.

"Fontoura, que ainda tinha recente mágoa pela morte de Antônio Paulino, com este novo golpe chegou a descer por um momento e pediu demissão do posto de major, resolvido a se retirar da luta.

...

"Em meados de setembro, novas cartas do Rio Grande trouxeram esperanças de paz, com a provável campanha contra Rosas. `E como só anelo a conclusão desta nossa malfadada luta, acredito sempre nestes boatos'.

"Estas esperanças se precisaram depois, aparecendo as bases de conciliação, que era mais ou menos as que mais tarde foram aceitas. Estas condições foram divulgadas e `estadamente refutadas em públicas e acaloradas conversas por alguns malvados'."

Durante a Epopéia Farroupilha, vimos em Vicente da Fontoura um homem mais cérebro do que combatente de armas em punho, porém atento e pragmático, de mente mais estratégica do que operacional. Participou dos primeiros embates, quando não motivar era omissão. Assim, participou da tomada de Rio Pardo, em 9 de outubro de 1835. Reservou-se, após, para as atividades fazendárias ou de chefe de polícia. Em situações críticas, era capaz de tomar o melhor partido e persuadir de forma irrefutável a seus contendores.

Vicente da Fontoura, acérrimo defensor da causa pública não descuidava da família, como o vemos, primeiramente, no seu Diário, escrito em forma de carta a sua esposa Clarinda à qual se refere com profundo afeto. Ou no prólogo desse mesmo Diário, escrito talvez após o combate do Passo do Rosário5. Aí revela gratidão e estima a seus progenitores, demonstra também sua preocupação com seus filhos e os estimula à luta, aos princípios morais, quando se lê:

"... Eu escrevo para meus filhos, pois a previsão que tenho de ver-lhes arrebatar, por efeito da revolução de meu Pais, a fortuna que lhes poderia legar para granjear-lhes uma subsistência honesta, é um forçoso motivo que me move a transmitir-lhes a série de acontecimentos que puseram o autor de seus dias na dolorosa colisão de vê-los entrar nos seus ternos anos envolvidos com privações.

"De mais, se ficarem condenados a ganhar o primeiro pão de subsistência, possuam pelo menos um documento que, suposto não é exato nas regras históricas lhes ensinará, ao menos, o trilho da honra e o conhecimento dos homens, suas sem razões e injustiças, e o muito que um fado injusto ou um turbilhão de azares sempre enublaram meus dias..."

Retornado ao Prólogo, refere-se aos pais com compreensão pelos parvos estudos propiciados. Era oriundo de família modesta que logo se preocupou em integrá-lo na sociedade, buscando uma das casas de comércio para que obtivesse sustentação. Sustentação econômica que logo lhe ensejou destinar parte substancial para seus progenitores.  Atitude que revela sua magnânima postura. Mas não ficou só aí a demonstrar altivez, outra característica a pontuar sua expressão caracterológica. Já estabelecido com seu próprio negócio é submetido a "vergonhosa e irremediável quebra" por ter socorrido com mercadorias e aval a amigos, ingratos sem dúvida. Sua altivez não permite empaná-lo ante esses percalços. Vence. Em 1835, já usufruía a invejável condição de comerciante bem sucedido. Nesta época, também se dedicava à causa pública, sendo eleito vereador desde o ano de 30. Nomeado procurador fiscal, agiu com sentimento de realizar o bem estar de seus concidadãos.

Sua maior glória, além dos princípios morais e da invejável cultura que, por seu espírito de pesquisa, transformou-o em autodidata, foi sua ação na causa Farroupilha, como Embaixador da Paz.

Em março de 1845 o estado de guerra rumava para a pacificação. Bento Gonçalves e Caxias, em auspicioso encontro e imbuídos dos princípios que norteiam os homens de bons costumes, conseguiram algum avanço, mas não no acordo. Vicente da Fontoura, por sua habilidade e diplomacia, é convocado para as negociações finais. Ele pensa comparecer acompanhado do Gen. Rivera, do vizinho Estado Oriental, uma provocação não aceita por Caxias. As tensões se amainam, prevalece a boa vontade à intimidação. Negociações refeitas. E Vicente da Fontoura agora é convocado para defender os pontos de vista dos Farrapos junto à Corte no Rio de Janeiro. A 6 de novembro, parte para Bagé e a 19, para a Capital Federal.  Recebido com desprezo e hostilidades pelos Ministros do Império, da Guerra e da Justiça, o que não o intimida, antes descobre neles simples "vassalos do Poder". E, na magnitude de seus princípios de justiça, enfrenta-os e os aniquila, usando apenas a ética com uma pitada de ironia. Tem audiência com o Imperador, que resulta em decisivo sucesso. Antes do retorno experimenta alguns dissabores e outros contatos na Corte, chegando até ter recebido voz de prisão do Ministro da Marinha. Manuel Marques de Souza, futuro Conde de Porto Alegre, como representante de Caxias que o acompanhava, tem importante participação junto aos Imperiais da Corte. Retornam finalmente, com o decreto Imperial, que propiciaria aos Revolucionários e a Caxias assinar o armistício. Um acordo honroso que, de imediato aceito, foi oferecido a Bento Gonçalves para referendá-lo.

Concluindo, releva que se transcreva o entendimento de Ferreira Rodrigues, comentando esta sua participação na fase final da Revolução:

"... Enquanto a individualidade dos outros havia diminuído, só a dele ganhara prestígio. Era um caráter e por isso vencia; era um caráter e talvez o único que houvesse atravessado, do começo ao fim, o ciclo revolucionário, sem desfalecimentos e sem falhas."

 

  

 

 

1   Esta data é revelada no Estudo Genealógico de J G Felizardo, e deve corresponder aos assentamentos pesquisados, porém o próprio Vicente da Fontoura no Prólogo que redigiu para seu Diário, diz ter nascido em 8 de janeiro de 1807.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

2   História da República Rio-Grandense, Ed. Sulina, 1983.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

3   Antonio Paulo da Fontoura - Paulino da Fontoura - faleceu assassinado em Alegrete, quando Vice-Presidente da República Rio-Grandense, 1843; era seu parente em 6º grau. (Vide sinopse biográfica).

 

 

 

 

 

 

 4    Diário de Vicente da Fontoura, Editoras EDUCS, Sulina e Martins, 1984, p.10, 11 e 14.

                Além desse Diário, legou-nos Vivente da Fontoura uma valiosa Memória, escrita, ao que parece, logo após o combate do Passo do Rosário, a qual foi publicada na Revista do IHGRGS, IV trimestre de 1928.

                Uma biografia mais ampla sua é escrita por De Paranhos Antunes, 1933, Ed. Livraria do Globo, 1933 sob o título, Antônio Vicente da Fontoura - O Embaixador dos Farrapos.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 5   Fragorosa derrota dos Farrapos de Corte Real ante os legalistas de Bento Manuel e Silva Tavares, a 16 de março de 1836.

 

 

 

 

 

 

BENTO JOSÉ CORRÊA CÂMARA - TEN.-GEN1.

 

Bento José nasceu em 1786, no Rio Pardo, onde foi batizado a 26 de julho do mesmo ano, tendo falecido aos 65 anos de idade no Rio de Janeiro, era 13 de abril de 1851.

É o quinto filho de Patrício José Corrêa Câmara2 e de Joaquina Leocádia da Fontoura. Ela, neta de JCF ele, açorita com uma vida voltada para a ação militar e administrativa no Sul. Bento José casou em Porto Alegre, em 10 de dezembro de 1804 com Maria Bernardina Ferreira Brito nascida em 1785 filha de Antero José Ferreira Brito, natural do Rio de Janeiro, secretário particular do Marquês do Pombal, e de Bernardina Antônia do Espírito Santo. Foram 9 os filhos do casal Bento José e Maria Bernardina.

Ensina Dante Laytano que no tempo dos Corrêa Câmara duras batalhas travavam-se entre luso-brasileiros e castelhanos buscando a posse das terras orientais ao rio Uruguai. Bento José, em 1081, inicia a atividade militar, atingindo logo ao posto de tenente por ato de bravura na Conquista das Missões. Em 1816, já então coronel, enfrenta na fronteira o General Artigas, saindo ferido. Em Taquarembó foi um dos heróis. Cegou a Ten.-General. Em seu currículo militar anotam-se muitas batalhas com sua participação: Santa Maria, Tapevi, Araicuá, Ibicuí, Cunhaperu, Passo de São Borja, Palomas, Itaquatiá e Catalã, onde mais uma vez foi gravemente ferido. Valente, temerário e estratégico, no dizer de Aquiles Porto Alegre, também um patriota.

 

 

 

 

1   Fonte: Dante Laytrano, Rio Pardo Guia Turistico - Prefeitura Municipal)

 

 

 

 

 

 

2   Patrício José inaugura o clã dos Corrêa Câmara no Brasil, em especial no Rio Grande do Sul com notável contribuição na conquista do território sulino arduamente disputado com os castelhanos. Vide sinopse biográfica nesta secção.

 

FRANCISCO BARRETO PEREIRA PINTO

 

Nasceu Francisco Barreto Pereira Pinto a 02-06-1709 em Lagoalva de Santarém, Terra da Feira, Coimbra, falecendo aos 67 anos, na vila de Rio Pardo, era 21 de março de 1775. Filho do Capitão-mor Manoel dos Santos Barreto, da vila da Feira, e de Dª. Madalena Pereira Pinto, da Terra da Feira, Portugal. No Brasil, chega por Minas Gerais, vai para o Rio de Janeiro em curta passagem, transfere-se para Rio Grande, após Viamão, para finalmente em 1755 transferir-se para Rio Pardo, como comandante daquele novo Regimento1.

Ingressou na carreira militar no Regimento de Dragões, em 1726, já residindo nas Minas Gerais, aí chega ao posto de alferes em 1736; transfere-se para o Rio Grande, no contingente trazido por Silva Paes, ainda quando se faziam as sondagens para a implantação do novo posto da colonização. Promovido a tenente, a capitão, a sargento-mor, sua carreira militar vai sendo reconhecida como exitosa. Em 1772 é promovido finalmente a coronel depois de relevantes serviços prestados como tenente-coronel e Governador do Continente.

Inicia-se com o Cel. Francisco Barreto Pereira Pinto, casado com a primeira filha de JCF, Francisca Velloza da Fontoura, a numerosa prole dos Pereira Pinto ou Barreto Pereira Pinto. Nela se inserem os Menna Barreto e os Simões Pires, entre outros importantes ramos da Genealogia Sul-Rio-Grandense. Através da vida de seus 15 filhos vamos encontrar os traços marcantes da história sulina desde os seus primórdios. A eles confiava a Corte portuguesa a fundamental tarefa de desbravar a terra, a eles coube o conseqüente enfrentamento com os castelhanos pretendentes do mesmo solo.

Francisco Barreto Pereira Pinto quando ainda Capitão comanda o arranchamento de açoritas no sítio do Dorneles, distrito de Viamão. Era o ano de 1753, a tarefa revestia-se de extrema delicadeza. Aquela gente, recém chegada, como se rejeitada em Santa Catarina, depois em Rio Grande, sem rumo, desesperançada, já vindo sofrida das superpopulosas ilhas dos Açores. Os mantimentos escassos, incerteza no prometido assentamento. Ninguém como ele dispunha de tanta habilidade e poder de persuasão para lidar com aquele grupo de povoados. Foi incansável o Cap. Pereira Pinto.

Mas é a partir de 1762, ante a aproximação de Pedro Cevallos que sua contribuição torna-se decisiva para o domínio português. O Cel. Tomás Luís Osório põe-se retirante a partir de suas posições em Santa Teresa. O Governador Elói de Madureira cede Rio Grande e Cevallos planta-se nas barrancas de São José. O domínio do Brasil Meridional pende para os castelhanos. Em outra posição, Barreto Pereira Pinto é o Comandante da fronteira de Rio Pardo. Designado Governador do Continente, passa a entender-se diretamente com o Rio de Janeiro. Planeja um plano de contra-ataque aos de Buenos Aires. Esse enfrentamento requeria mais ousadia. O contingente aqui sediado seria quando muito equivalente ao poderio disponível por Cevallos. Precisavam-se de reforços, não só numéricos mas fundamentalmente de conceitos táticos e estratégicos além dos até então conhecidos. A Junta Governativa do Rio de Janeiro percebe e a Coroa não hesita, transferindo para o Continente do Rio Grande uma das mais importantes ações militares. Significativos reforços bélicos por terra e mar, também milicianos são recrutados em outros reinos, que se engajam à banda dos luso-brasileiros (João Böhn, Mac-Douall, Herdcastle). José Marcelino recebe o Governo e o comando de todas as operações militares. Presume-se que a grandeza maior de Barreto Pereira Pinto esteve em retratar com fidelidade o exato estado de nosso poderio bélico que, se enfrentasse o contendor, poderia ser transformado em afoiteza, registrando a História outra rumo aos acontecimentos. Os castelhanos foram expulsos a partir de Camaquã, Santa Bárbara e Tabatingaí, Rio Grande reconquistada e, finalmente, capitulado em Santa Tecla. Estas ações o Cel. Barreto Pereira Pinto em seus anos findos ainda pode comemorar.

 

  

 

 

 

 

 

 

 1   É o que informa J.G. Felizardo e J. Pinto Guimarães.

 

FRANCISCO PINTO DA FONTOURA

 

Nascido gaúcho de Rio Pardo no ano de 1816, o "Poeta da Revolução" foi assassinado em Livramento, era 30-10-1858. Destino também reservado a outros lideres Farroupilhas: Paulino da Fontoura, seu tio, este Vice-Presidente da República Rio-Grandense. e Vicente da Fontoura. Filho de Francisco Pinto da Fontoura e de Maria Inácia da Fontoura1 casou com Leopoldina Ourique, em Alegrete, no ano de 1846, havendo desse casal quatro filhos.

Seu nome está ligado ao Hino Rio-Grandense, como autor do poema do hino oficial do Estado, cuja música é do negro, mineiro de Ouro Preto, o maestro Joaquim José de Mendanha. Consta que, ao ser executado pela primeira vez2, o poema era outro. Isto ocorreu logo após a tomada de Rio Pardo, em 30 de abril de 1838. Serafim Joaquim Alencastre inspira-se e empresta letra3, que o Maestro adota para sua composição realizada em pleno cárcere dos Imperiais. Porém consta que, embora a música tenha agradado, a letra sofria alguma restrição. Ocorre que, em paralelo, Francisco P. da Fontoura escrevera versos para a mesma música de Mendanha. Mais espontâneos, eles dominaram a simpatia popular. Eis que, já na comemoração da tomada de Rio Pardo, um ano após, nos festejos realizados em Caçapava, na letra do "Hymno Republicano Rio-Grandense", foi adotado o poema de Francisco Pinto que, com o mesmo ardor e civismo, inspirara a Serafim Alencastre. Mais adiante, durante as comemorações do Centenário da Epopéia Farroupilha, sob o patrocínio do Instituto Histórico Geográfico do Rio Grande do Sul, optou-se pela letra de Francisco Pinto da Fontoura4.

O Rio Grande do Sul que inseriu na história da Pátria, memoráveis feitos, sacrificando muito de seus filhos, cingidos de deveres e de patriotismo, assim canta o poema de Francisco Pinto da Fontoura, o Chiquinho da Vovó, como também fora conhecido, com música do maestro Mendanha e arranjo de Antônio Corte Real5.

 (1)

Como a aurora precursora

do farol da divindade,

foi o Vinte de Setembro

precursor da Liberdade.

 

(2) - estribilho

Mostremos valor, constância,

nesta ímpia e injusta guerra;

sirvam nossas façanhas

de modelo a toda a terra,

de modelo a toda a terra,

sirvam nossas façanhas,

de modelo a toda a terra.

(3)

Entre nos, sirva Atenas

para assombrados tiranos:

sejamos gregos na glória

e na virtude romanos. - estribilho

(4)

Mas não basta para ser livre

ser forte, aguerrido e bravo;

povo que não tem virtude

acaba por ser escravo. - estribilho

O fulgor cívico que inspirou seus autores, obumbra-se em acanhado entusiasmo nos gaúchos de hoje. Conhecido, não como requer um símbolo cívico, talvez insinue quão esquecidos jazem os feitos que honraram seus ancestrais, ao estabelecerem os limites da sua terra, ou objetando a espoliação do Governo central, sempre imprimindo ardor a seus concidadãos. Mais do que isso, há por assim dizer, hoje, uma falta de vontade política  - e também confusão - em organizar a cultura legada, propiciando aos moços, desde tenra idade, através das escolas, inteirarem-se dos feitos e glórias do passado. Uma virtude que falta, perdida quando o interesse político se submete aos vícios da corrupção. Reascender essa garra é o que precisa ser resgatado. E é oportuno lembrar o final dos versos de Francisco Pinto da Fontoura. "povo que não tem virtude acaba por ser escravo".

 

  

 

 

 

1   Conforme publicou o pesquisador Ivo Caggiani, corrigindo um equívoco reinante sobre a ascendência de Francisco Pinto da Fontoura - o Poeta.

 

 

 

 

2   Foi em 05-05-1838, que Mendanha executa pela primeira vez o Hino perante o Estado Maior Farrapo. Por essa razão é o 05 de Maio considerado o Dia do Hino Rio-grandense, conforme calendário Histórico-Cultural do Estado,

  Letra de Alencastre: "No horizonte rio-grandense/ se divisa a divindade,/ extasiada em prazer,/ dando viva à liberdade.// Da gostosa liberdade/ brilha entre nos o clarão;/ da constância e da coragem/ eis aí o galardão. // Avante, ó povo brioso,/ nunca mais retrogador,/ porque atrás fica o abismo/ que ameaça vos tragar.// Salve, o Vinte de Setembro/ dia grato e soberano/ aos heróis continentistas,/ ao povo republicano.// Salve, o dia venturoso/ risonho trinta de abril/ que aos corações patriotas/ enchestes de gostos mil."

 

4   A revisão tornava-se necessária pois havia uma outra versão intermediária, publicada no jornal A Federação, de signo do Partido Republicano, castilhista, em 1887, e que adotava a letra de Serafim Alencastre, com alterações.  Essa revisão incluiu também a música para torná-la com métrica adaptável à letra e de ordem rítmica para dar-lhe um caráter marcial mais acentuado.

 

5   A Lei 5213, de 05-01-66, oficializa o Hino Rio-Grandense, retificado pela publicação, de 11-11-68, do Diário Oficial. Deve-se, portanto, ter cuidado com gravações anteriores a esta data. A primeira gravação executada em caráter oficial é de 1971, executada pela Orquestra Sinfônica de Porto Alegre, sob a regência da Pablo Komlós.

 

JOÃO DE DEUS MENNA BARRETO - VISC. S. GABRIEL

 

O Visconde de São Gabriel, nasceu em 1769, na vila de Rio Pardo, aí falecendo aos 80 anos, em 1849. Filho do Cel. de Dragões Francisco Barreto Pereira Pinto e de D. Francisca Veloza da Fontoura, esta a primeira filha de JCF. Com João de Deus, foram 15 os filhos desse casal, nascidos em Rio Grande, Viamão e Rio Pardo, locais em cuja ordem se deu a migração dos primeiros colonos no Continente de São Pedro1.

Desde muito jovem dedica-se à carreira militar, fazendo jus aos galões de marechal. Casou, aos 19 anos, com Rita Bernardes Cortes de Figueiredo Menna em dezembro de 1788. Dona Rita nascida em 1773, no Rio de Janeiro, faleceu em 1824. Esse casal é fulcro de um dos mais importantes ramos genealógico do Sul: os Menna Barreto. Um clã, cujo brio, arrojo e apego à legalidade cintilou na história militar do Brasil.

Sua influência que se destacara já na região Serrana (S. Nicolau) fez-se mais significativa na região da Campanha. Após a conquista de 1801, ação militar dirigida pelo Reino à Redução da Cruz, veio à ocupação propriamente dita. Na operação miliciana é capitão e chega a sargento-mor (major). Na ocupação, São Gabriel é seu destino. Enquanto as colunas do Reino invadem o Estado Oriental, João de Deus é mandado guarnecer aquele território das Missões. Liderança marcante, juntamente com: Francisco Machado da Silveira, Inácio Veloso da Fontoura, Pedro José Corrêa Câmara, José Maria Lobo d’Eça (Barão do Saicã), Pe. João de Almeida Pereira, Antônio Alves Trilha, Antônio Pinto da Fontoura e Manoel Carneiro da Fontoura, aos tempos de D. Diogo de Souza, dão origem ao povoamento de São Gabriel. Entre outros esses desbravadores receberam sesmarias na região do Batovi e Vacacai. Em 1812 o já Cel. João de Deus organiza o 1º Regimento de Cavalaria Miliciana da Fronteira. Em 1816, o Brigadeiro João de Deus, defendendo o território das Missões; confronta-se com o inconformado general oriental Artigas em renhidas batalhas. Na final, João de Deus resulta ferido e os invasores postos fora de combate. Veio o ano de 1817, outra batalha memorável, Catalã. Nesta também gravemente ferido resulta Gaspar Francisco Menna Barreto, seu filho primogênito.

Reformado desde 1832 como Marechal, foi residir em Porto Alegre. Vem a Revolução Farroupilha e ai se impacienta ante os primeiros ataques. Abraça a causa Legalista e prepara a reação na retomada de Porto Alegre, de 1836, assumindo o comando militar. Porém não se engaja na luta alegando questões de saúde2. Feita a paz de Ponche Verde, em 1945, recolhe-se definitivamente, agora no seu torrão natal, Rio Pardo.

Foi distinguido com inúmeras condecorações por suas participações em lutas. Foi ainda Presidente da Junta Representativa e Governador das Armas da Província do Rio Grande do Sul, em 1822. Dignitário da Imperial Ordem Militar do Cruzeiro; Comendador da Imperial Ordem de São Bento d’Avis; e, com honras de grandeza, Visc. de São Gabriel, conforme carta imperial de 10-01-1846.

 

  

 

 

 

 

 

1   Anotam-se 18 filhos de João de Deus, sendo que 14 com sua esposa e mais 4 havidos após o falecimento dela.

                Um fato inverossímil é o de que João de Deus teria nascido Barreto Pereira Pinto e que ao casar, conforme dispositivos legais, justificou o nome para Menna Barreto. Isso se depreende do inventário de seu pai, Francisco Barreto Pereira Pinto. João de Deus, que era menor nesse evento já era Menna Barreto e não como consta na versão de Dante de Laytano (v. Guia Histórico de Rio Pardo, 2ª Ed, p 196 1º§) na qual acredita ser o Menna e decorrente do nome de sua esposa, alterado após o casamento.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

2   Quem sabe também se possa cogitar do dilema resultante entre a justa causa dos Farroupilhas e a preservação da ordem monárquica.

 

JOÃO MANOEL MENNA BARRETO

 

Nasceu João Manoel, como o 18º filho de João de Deus Menna Barreto, o Visconde de S Gabriel e de Maria Joaquina de Almeida. Era o ano de 1827 e na cidade de Porto Alegre. Bisneto de JCF, sua vocação militar o levou a brigadeiro do exército, faleceu em combate - Peribibuí, Paraguai - no dia 12 de agosto de 1869.

 Casou com Maria Balbina Palmeiro da Fontoura, irmã de Francisca, esta casada com João Propício1 irmão de João Manoel. Foi no ano de 1849, e resultou em 5 filhos.

Professou a vida militar com glória ímpar, cingindo os Menna Barreto com a tradição de várias gerações de soldados, que os honram e dignificam. Lutou na campanha do Uruguai de 1854, onde combateu Oribe e Rosas, participando do combate de Paisandu. Em 1865, já como coronel, depois de atuar na Corte Imperial, como comandante do 1º Regimento, passa a atuar da Guerra do Paraguai, participando entre outros eventos, das batalhas de Avaí e Lomas Valentinas. E o ferimento fatal na batalha de Peribibuí, aos 42 anos, rouba a vida deste, acima de tudo, disciplinado soldado.

O Brigadeiro João Manoel comandou várias guarnições, como as de Livramento, Uruguaiana e Missões, foi comandante das Armas da Província. Seu destaque é revelado pelas distinções recebidas: Oficial da Imperial Ordem Militar do Cruzeiro, Cavaleiro da Imperial Ordem Militar de Cristo, Hábito da Imperial Ordem Militar de São Bento d’Avis.

 

  

 

 

 

 

 

1   João Propício, 2º filho do Visconde de São Gabriel; vide sinopse biográfica.

 

JOÃO NEVES DA FONTOURA

 

Nascido em Cachoeira do Sul, em 1887 e falecido no Rio de Janeiro, em 1962. Filho de Isidoro Neves da Fontoura1 e de Adalgysa Franco de Godoy. Foi casado com Iracema Barcelos de Araújo, resultando 3 filhos; o primogênito, Isidoro faleceu impúbere, Clara Luiza faleceu solteira e Maria Helena casou no Rio de Janeiro.

Desde criança se destaca nos estudos, foi interno para o colégio N. Sª. da Conceição, em São Leopoldo e conclui a Faculdade de Direito laureado. Aí, foi contemporâneo de Getúlio Vargas. São contemporâneos mais próximos ainda, Oswaldo Aranha, Flores da Cunha, Lindolfo Collor e Maurício Cardozo, entre outros, que formam o grupo dos "jovens turcos". Lidera um "Bloco Acadêmico" sob o signo castilhista. Ao ingressar na Faculdade, Borges de Medeiros já havia sucedido Júlio de Castilhos há pouco mais de um ano.

Ingressa na política, sendo convidado para a Promotoria Pública2 da qual Getúlio Vargas acabara de renunciar. Retorna a Cachoeira e torna-se Intendente de 1925 a 1928, quando é eleito Deputado Federal (de 1928/30 e de 34/37). Embaixador em Portugal de 1943/45, no governo de Vargas. Ministro das Relações Exteriores e Embaixador nos Estados Unidos, no Governo de Dutra. Ministro Extraordinário da Conferência de Paz na Europa e Interamericana de Bogotá. Membro da Academia Brasileira de Letras.

Tribuno notável que foi, sua obra nos chega através de diversos compêndios, relatando sua participação. Entre estes, temos Memórias (Borges de Medeiros e Seu Tempo), Acuso3, Por São Paulo e Pelo Brasil, Jornada Liberal. Eis o que diz Antônio Carlos de Andrada no prefácio deste último livro, retratando a grandeza deste notável homem público que viveu na Era Vargas.

"Seus discursos são modelos de extraordinária eloqüência, ardor cívico, força e persuasão e extrema fulguração verbal."

Compara-o a Rui Barbosa, Silveira Martins, José Bonifácio e Joaquim Nabuco que também fizeram nome na Câmara Federal. E prossegue, dando-nos um espelho de sua personalidade:

"Ele foi inexcedível no mérito de sugerir e formular iniciativas, conciliar opiniões, agremiar forças, suscitar e corporizar idéias, conter e serenar paixões; enfim, no talento de, por processos mais sutis e engenhosos, remover dificuldades, acomodar competições, desmanchar equívocos, compor divergências, unir, orientar e conduzir homens".

Nisto, relembra a Vicente da Fontoura, O Embaixador dos Farrapos e seu conterrâneo, como prossegue o citado prefácio:

“... ao lado da atividade tribúnica, coube-lhe, em todos os momentos, agir no meio subterrâneo da política, aquele que escapa a percepção pública e no qual freqüentemente mais sérios são os combates, mas necessários, por isso mesmo, em alta escala os atributos de comando. Nesse oculto, mas importante setor das campanhas políticas, ninguém sobrepujou a João Neves, na segurança da estratégia e na habilidade da tática.”

 

  

 

 

1   Isidoro, republicano convicto, fundou esse Partido em Cachoeira, movimento que liderou desde a queda da Monarquia; Intendente em 1908, reeleito em 1912, não aceitou tomar posse e em 1919 é eleito para a Assembléia de Representantes para o que também recusou a posse. Próspero comerciante de 1877 a 1901 e depois de retirar-se da vida pública, em 1912, por iniciativa própria, dedicou-se à lavoura do arroz, uma atividade próspera então.

 

 

 

 

 

 

2    Sua iniciação política foi preparada com grande zelo por Borges de Medeiros ao reconhecer nele qualidades inatas, tanto é que, após a conclusão da Faculdade, recebeu recomendação de retornar à sua terra natal e lá, ao lado das atividades advocatícias, encaminhar-se aos cargos eletivos, municipais e da Assembléia de Representantes.

 

 

 

 

 

 

 

3   Publicação em que se põe antagônico a Getúlio Vargas e justifica a adesão ao movimento paulista de 32.

 

JOÃO PROPÍCIO DE FIGUEIREDO MENNA BARRETO

 

Segundo filho do fundador da família Menna Barreto, João de Deus, o Visconde de São Gabriel, e de Rita Bernarda Cortes de Figueiredo Menna, era portanto João Propício bisneto de JCF. Entre seus 17 irmãos consta outro bravo soldado o Brig. João Manuel1, João Propício nasceu em 1792, em Rio Pardo, e faleceu em 1867, em São Gabriel.

Casou com Francisca Palmeio Pinto da Fontoura, trineta de JCF, e sobrinha de Paulino da Fontoura e Francisco Pinto da Fontoura, aqui biografados. Deste matrimônio resultaram 8 filhos, possivelmente todos nascidos em São Gabriel, onde se estabeleceu o casal antes de 1850.

Destacado militar, notável pela bravura nos combates, estrategista nato, imbatível na tática. Sentou praça, por dispensa régia, aos 12 anos de idade no Regimento de Dragões de Rio Pardo. Participou da Guerra das Províncias Unidas do Prata, distinguindo-se na batalha do Passo do Rosário. Na sua participação na revolução de 35, jamais se afastou da legalidade Imperial. Combateu Rosas, quando, em 1851, invadiu a Argentina. Em 1864, como comandante em chefe das forças Imperiais, invade o Uruguai, para combater Aguirre, distinguindo-se na tomada de Paissandu, em 1865, e na tomada de Montevidéu. Chegou ao posto de Marechal-de-Campo.

O Mar. João Propício foi agraciado com o título de Barão de São Gabriel (II)2 com Honras de Grandeza. Dignitário, Oficial da Imperial Ordem Militar do Cruzeiro, Comendador e Oficial da Imperial Ordem Militar da Rosa, Primeiro Vice-Presidente do Rio Grande do Sul, em 1858 e Comandante das Armas da Província em 1864. Isto de per si, retrata o caráter invulgar e nobreza deste notável filho da terra gaúcha, descendente de seus primeiros povoadores.

 

  

 

 

 

 

1    João Manoel, 18º filho do Visconde de São Gabriel (Vide sinopse biográfica).

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

2    Uma informação que não se dá crédito é de que João Propício teria recusado o título de baronato. Pesquisado ao feito de seu inventário isso não encontra respaldo.

 

JOÃO SIMÕES LOPES FILHO - VISCONDE DA GRAÇA

 

Nasceu em 1817, na cidade de Pelotas, aí falecendo em 1893. Filho de João Simões Lopes e de Izabel Dorothea Carneiro da Fontoura, neta de JCF, através de José Carneiro da Fontoura. Casou em primeiras núpcias com Eufrázia Gonçalves Vitorino, em 1836, em Pelotas, resultando deste matrimônio 12 filhos. Seu segundo casamento, realizado em 1857, também em Pelotas, foi com Zeferina Antônia da Luz e foram 10 seus filhos.

Defensor dos Farrapos, estava com 18 anos ao irromper o Movimento de 35. Dedicou-se ao comércio logo após, mais especialmente aos negócios de carnes, estabelecendo-se com uma charqueada em Pelotas. Ao lado de grande discernimento e iniciativa em seus negócios, tratou com expressivo senso social, sem jamais negar auxílio aos humildes e menos aquinhoados. Implantou um asilo em sua terra natal.

Na administração pública, foi Vice-Presidente da Província, no ano de 1871.

 

  

 JOSÉ CARNEIRO DA FONTOURA

 

José Carneiro da Fontoura, 2º filho de JCF, nasceu na Freguesia da N. Sª da Conceição do Curral d’El-Rey, do Bispado de Mariana, quando seu pai ainda estava ingresso no Regimento de Dragões da Província de Minas Gerais, no ano de 1733. Veio para o Rio Grande com seus pais e três irmãos, provavelmente, em novembro de 1737, ao iniciar a colonização que Silva Paes implantara, desde fevereiro do mesmo ano.

Casado com Dorothea Francisca Izabel da Silveira, no ano de 1774, em Viamão, tendo o casal se estabelecido em várias povoações1, devido suas incumbências militares em favor da conquista e povoamento da colônia luso-brasileira. Dorothea, nascida em 1762 em Rio Grande e falecida em Porto Alegre em 1796. Enquanto José Carneiro da Fontoura faleceu, em 1805, em Rio Pardo.  Foram 13 os seus filhos, entre os quais Ana Regina, o Ten. João Gualberto, o Ten. Pedro José, e Izabel Dorothea2.

Teve o Cap. José Carneiro da Fontoura destacada participação nos tempos da formação do Continente de São Pedro. Registra a História que no ano de 1763, terminada a Guerra dos 7 Anos, entre Inglaterra e França, envolvendo Portugal e Espanha, é assinado o Tratado de Paris. A Espanha devolve o Sacramento a Portugal. Os colonizadores espanhóis da América não se conformam, reforçam Montevidéu. Os jesuítas, em 1767, são definitivamente retirados, após gestões do Marquês do Pombal. A situação é tensa entre os colonizadores do Cone Sul-Americano. No ano de 1773, pretendendo reforçar as tropas que imprudentemente mantém Rio Grande sob domínio espanhol, J. J. Vertys y Salcedo chega a Montevidéu, avança pelo rio Negro e em sua cabeceira funda o Forte de Santa Tecla. Rio Pardo resulta como núcleo da resistência lusa, que não poderia ser desprezado nesse que seria avassalador ataque castelhano. Agora tropas de Vertas dirigem-se para o Jacuí e é batido em Camaquã, Santa Bárbara, Dom Marco e Tabatingaí. Era 14 de janeiro de 1774, quando Rafael Pinto Bandeira e Cypriano Cardozo, tendo a José Carneiro da Fontoura no comando do Regimento do corpo ulterior de Rio Pardo, derrotam a Zabala, um dos capitães de Salcedo. Festejado feito pelas tropas compostas por militares oriundos da gente da terra, enquanto se formava uma operação militar  - a maior do Reino -  recrutando oficiais militares de outras nações inclusive, para recuperar Rio Grande.

 

  

 

 

 

 

 

 

1    A considerar o nascimento de seus filhos, teriam morado em Porto Alegre, Rio Grande, Rio Pardo, Viamão, Gravataí, estas duas últimas alternadamente.

 

 

2    Ana Regina, casou com o Cel. Engenheiro José Saldanha, que teve destacada participação na Comissão Demarcadora de Limites de 1777. Vide nota 25.

                O Ten. João Gualberto participou da ocupação definitiva dos 7 Povos das Missões, tendo comandado o forte de São Nicolau.

                Ao Ten. Pedro José, concomitante com a operação militar à Cisplatina de 1801, coube-lhe fazer parte do povoamento em torno de São Sebastião, nos "avançados campos de Bagé". Estes povoamentos correspondiam a uma tática de ocupação iniciada em 1807. Aí assentou o núcleo do Carneiro da Fontoura, hoje município de Dom Pedrito, quando se estabeleceu às costas do Rio Santa Maria, limites da das terras de Portugal pelo tratado de Santo Ildefonso (1777).

                Izabel Dorothea casou com João Simões Lopes, com significativa prole dos Simões Lopes, em Pelotas, incluindo o Visconde da Graça, com sinopse biográfica nesta secção.

 

 JOSÉ SALDANHA

 

Atuou, com invulgar contribuição, na Comissão Demarcadora de limites após o Tratado de Santo Ildefonso. Junto a ele também estiveram presentes Joaquim Félix da Fonseca Manso e João de Deus Menna Barreto, João José da Fontoura Palmeiro e João Propício Menna Barreto, estes dois últimos em São Nicolau. A ele foi conferida a patente de Capitão de Engenheiros, em face de sua especialização em Geografia e Astronomia, depois de bacharelar-se em Filosofia pela famosa Universidade de Coimbra. Consta que o Cap. José Saldanha, segundo H. J. Velloso da Silveira, no seu Diário Resumido além observações topográficas, insere inúmeras outras de caráter científico. E prossegue o citado autor de As Missões Orientais e seus Antigos Domínios, foi ele, por outro lado, um dos primeiros a registrar atentamente muitos termos e expressões do falar Rio-Grandense.

Só em 1801, após a definitiva conquista das Missões, foi que Saldanha deixou Santa Maria, passando ali 14 anos. Entretanto em 1799, lhe são conferidos terras - 3 léguas e meia -  no rincão de Tuparency, na fronteira de Rio Pardo (São Sepé).

Casado, em 1774, com Ana Regina Tomásia1, esta a primeira filha de José Carneiro da Fontoura. Desse casamento resultou em apenas uma neta a JCF. José Saldanha, natural de Lisboa, é filho de José Saldanha e de Ana Joaquina.

 

 

1    Alguns autores, tais como Paulo Xavier, em depoimento pessoal ao Coordenador desta pré-edição (0.4 - 1998), questiona a verossimilidade deste matrimônio, assim como consta em Genealogia Rio-Grandense - Título Carneiro da Fontoura.

OSCAR CARNEIRO DA FONTOURA

 

Filho de Alexandre Carneiro da Fontoura1 e de Francisca Lopes Formoso, sua 2ª esposa, nasceu Oscar Carneiro da Fontoura, no ano de 1900, em Dom Pedrito, tendo falecido em Porto Alegre, em 27 de dezembro de 1977. Liga-se a JCF (5ª geração) através de José Carneiro da Fontoura2 e de Pedro José e seus descendentes. Este último assentou-se nas imediações da Guarda Velha de São Sebastião, nos avançados campos de Bagé, que para aí foi, no ano de 1807. Oscar casou com Alice Machado e desse casamento resultaram 3 filhos.

Viveu nos tempos de João Neves da Fontoura que, vindo de outro ramo, da 6ª filha de JCF, Angélica, era natural de Cachoeira do Sul. Oscar Carneiro da Fontoura, revelava-se já um hábil político e arraigado a causa maior: ao interesse da sociedade como força viva da Nação. Em 1932 juntamente com Borges de Medeiros, Raul Pilla, Batista Luzardo e outros, resultam exilados no Uruguai, por participarem da Revolução Constitucionalista de São Paulo. Após a anistia, em 1935, foi Deputado Federal, exercendo seu mandato pelo período de um ano, quando renunciou, retornando a atividade médica, em sua Terra natal. Voltaria a política mais tarde. Atilado, sua habilidade em gerir a sempre intrincada vida política regional e brasileira já o fazia um político de mente estratégica por excelência; coordena em 1954, no Estado gaúcho, as campanhas eleitorais que elegeram Juscelino Kubitchek e Ildo Meneghetti a Presidente e a Governador respectivamente.

Médico, formado em 1923, exerceu sua profissão em Dom Pedrito, onde era reconhecida a sua grandeza de espírito comunitário e a sua insubmissa fraternidade. Em 1928, foi eleito o primeiro intendente (prefeito) municipal pela oposição no Rio Grande do Sul, Partido Libertador. Cônscio de importância no mundo político que o envolvia, mesmo após seu deliberado recesso, assume a Secretaria dos Negócios da Fazenda, de 1937 a 1945; eram Governadores: Daltro Filho, por morte deste, Cordeiro de Farias, que foi sucedido por Ernesto Dorneles. Em 1946, elegeu-se Deputado Constituinte, pelo Partido Social Democrático (PSD), do qual foi um dos seus fundadores e Líder de Bancada. Em 1947, como Secretário do Interior e Justiça participa ativamente do governo Walter Jobim. Pecuarista, também atuou em 1962 como Presidente da FARSUL, ai empresta sua colaboração ao órgão de classe das atividades agropastoris.

UMA MENTE ESTRATÉGICA E TINO PRAGMÁTICO

Conduzido à pasta da Fazenda, coube ao Dr. Oscar Carneiro da Fontoura viabilizar as políticas econômica, orçamentária e tributária, tal que os recursos financeiros suprissem as metas das demais Secretarias de Governo. A resultante de sua ação política executada assim como a idelizou.entre outras teve as seguintes premissas:

  • Manter um sistema fiscal justo. Um imposto exorbitante, além de inibir o contribuinte, conseqüentemente o coloca inimigo do Estado. Isso já se comprovou aqui mesmo no Brasil Colônia, no tempo da mineração, com a cobrança do “quinto”; injusto o é, também, porque pagam uns e outros, pela sonegação usufruem benefícios particularizados.

  • O equilíbrio orçamentário se dá pelo aumento da produção que importa em aumento da renda. O ganho na receita se daria pelo incremento da produtividade e jamais avultando a carga tributária. Os incentivos aos meios produtivos, antes de benefícios localizados, deveriam ser justificados pelo ganho coletivo. E o aumento da carga tributária só poderia ser pensado se houvesse um real melhoramento da prestação de serviço pelo Estado. Nisso era enfático ao declarar:

  • O Orçamento como ferramenta administrativa, requeria uma reorganização da Secretaria da Fazenda e do arcaico Sistema Contábil.

  • melhorar o desempenho do funcionário público, resgatando sua dignidade pessoal e sua autoridade funcional.

UM EXEMPLO PARA SER SEGUIDO

Já se aduziu sobre a sua habilidade de gerir situações de conflitos e sua mente estratégica. Já se tem notícia de sua magnitude no trato com os semelhantes. Ético, envolvente, ora instigador ora encorajador, sempre visando obter o maior rendimento de que cada um tem a dar para o coletivo. Porém, o exemplo de homem público, não se encerrou apenas nessas qualidades. Geriu os negócios da Fazenda sem jamais avultar a carga tributária, mesmo que, no dizer de Amyr Borges Fortes, coubesse a este ilustre pedritense “criar os recursos necessários indispensáveis às realizações dos demais secretários”.

Por diretrizes políticas dos governos que compôs, o Estado projetava-se para uma modernidade que representava industrialização e produção agropecuária, visando, inclusive, à exportação, mesmo diante de uma pecuária em crise e de uma lavoura colonial também. Para escoar a produção, requeriam-se investimentos maciços no transporte rodoviário e de cabotagem. A Secretaria da Fazenda encontrou recursos, e ainda, não com aumento de impostos; incrível, reduziu as tarifas dos produtos exportáveis em 65%.

A Receita Tributária, com um imposto sobre Vendas e Consignações taxado em 1,5%, distancia-se significativamente dos tempos atuais, onde a escassez de recursos financeiros é resolvida pensando-se mais em sobrecarregar a carga tributária sem a devida reflexão sobre os efeitos nos meios produtivos. Uma maneira de suprir a ineficácia administrativa pública, inescrupulosa às vezes, frontalmente avessa à empregada em sua gestão. Claro está, não se desconhece ficarem maiores, hoje, os encargos do Estado para com a coletividade, ou pelo menos mais complexos, pelas junções externas, de ordem econômica e de requisitos financeiros. Mas se ficaram, e a meu juízo, decorre de diretrizes literalmente incompatíveis com as traçadas na gestão dos negócios da fazenda de 37 a 45.

Tal sorte, se assegura, é em seu primoroso enfoque do social que se assenta tão profícua gestão na Secretaria da Fazenda, obra que se diria justa e perfeita, e dela fonte inspiradora de administração pública. Emana, pois, deste ilustre pedritense, seu mentor, um justo motivo de orgulho entre seus concidadões e que os rio-grandenses, também, o reverenciam.

 

 

 

 

 

 

1    Alexandre, republicano assumiu a Intendência de D. Pedrito em 1890, em oposição aos Liberais e conservadores ortodoxos, por decisão de Júlio de Castilhos, logo após a Proclamação da República. Foi casado em primeiras núpcias com Izidra Carolina Barros, aí resultando 7 filhos, entre os quais Alencastro Carneiro da Fontoura, com sinopse biográfica nesta secção. (Já citado na sinopse biográfica de Alencastro Carneiro da Fontoura.

 

2    José Carneiro da Fontoura, vide sinopse biográfica.

 

PATRÍCIO JOSÉ CORRÊA CÂMARA1

 

Patrício José, português, da ilha São Miguel, nos Ações. Consta ter nascido a bordo do navio que transportava seus pais, o Desembargador Gaspar José Corrêa Câmara e de Isabel Inácia de Bitencourt, quando rumavam para o Reino de Portugal. Era o ano de 1737. Faleceu no Rio Pardo, já com 90 anos de idade, em 28-05-1827. Casado, em 1870, com Joaquina Leocádia da Fontoura, esta neta de JCF, através de sua 6ª filha Agélica Veloza da Fontoura.

A notável aptidão de Patrício Corrêa Câmara para a vida militar, desde cedo reconhecida, irá marcar sua vida. Radicado ao Rio Pardo, desde 1772, onde por meio século comandou as tropas aí sediadas. Ao chegar no Brasil já detinha o posto de capitão, tendo passado antes pela Índia.

Em seu tempo, os castelhanos dominavam Rio Grande, desde 1763, seriam expulsos 1776. Rio Pardo já era um importante ponto estratégico nessa luta de conquista do Sul. O local, sediando muitos dos luso-brasileiros, sesmeiros e militares, requeria um bem urdido censo comunitário sob pena dos interesses pessoais tornarem-se mais relevantes e assim prejudiciais a colonização portuguesa. Era gente oriunda de diversas localidades, os retirantes coloneses, os mineiros e vicentinos atraídos pelo gado bovino eqüino e muar que medravam bagualmente nestes campos deixados pelos expurgados jesuítas, os açoritas, que buscavam melhor oportunidade que as oferecidas em suas susperpopulosas ilhas. Corrêa Câmara, homem ativo, com poder de persuasão, na ação militar era um disciplinador, um estrategista e na vida comunitária, um realizador. José Marcelino, então governante máximo desta Colônia de São Pedro reconhecendo seus méritos o promove a Sargento mor em 1774.

Em tempos de paz, além dos cuidados com a vida social e infra-estrutura da Vila, mereceu sua atenção o quartel, a prisão, a casa da pólvora, entre outras obras, que foram reformadas. Reconstruiu a casa do Governo, reedificou também a igreja. Se por um lado os recursos financeiros para todos esses empreendimentos eram minguados, por dotação da Corte, soube Corrêa Câmara captá-los entre os concidadões, que propiciava um justo orgulho àquela gente ali sediada. Em 1808 reforma também a milícia de Rio Pardo. Em tempos de lutas, participou das campanhas de 1801, 1808, 1811, 1812 e 1816. Além dos sacrifícios pessoais, sem contudo comprometer, suas obrigações como chefe de família, teve de enfrentar os temidos charruas e minuanos, que se diz instigados pelos espanhóis.

Após a conquista das Missões, em 1801, foram muitos os cuidados a merecer a atenção de Correa Câmara. As terras antes ocupadas por castelhanos, agora cedidas, a saber: o Batovi, o vale do Jaguari, a passagem do rio Santa Maria, o acampamento do Herval, às cabeceiras do Jaguarão-Chico e do Rio Negro, a guarda de São Sebastião, precisavam mais do que os acordos diplomáticos das cortes ibéricas, requeriam a efetiva e imediata incorporação do território missioneiro, impedindo o avanço dos platinos. Isto no dizer de Dante de Laytano constituem capítulos importantes na biografia de Correa Câmara. Este em ação conjunta com D. Diogo de Souza, assegura o apoio militar e o assentamento dos luso-brasileiros. Na Campanha de 1811-1812, comandou a 3ª Divisão do Exército Pacificador e acompanhou D. Diogo de Souza a São Borja. Volta para Rio Pardo, para nas lutas de 1816-1820, comandar a fronteira de Rio Pardo.

Agraciado Comendador das ordens de São Bento d’Avis e de Cristo, Fidalgo Cavalheiro da Casa Imperial Brasileira, também fez jus a várias medalhas militares. Depois recebeu o título de Barão de Pelotas e um ano mais tarde, em 1826, detém o de Visconde. Título este também concedido mais tarde a seu neto, o Mal. José Antônio Corrêa Câmara.

Na luta pela independência, põe-se emancipacionista. Recebe a nacionalidade brasileira ao submeter-se à obediência do Príncipe D. Pedro.

O Visconde (1º) de Pelotas, foi proprietário de muitas terras, entre Palmas e Piraí, arroios afluentes do rio Pardo, e também em Encruzilhada, usufruindo as concessões facultadas pela Lei das Sesmarias. Sua vasta prole, gerada por 15 filhos.

Morre 5 anos após a emancipação política do Brasil.

 

 

 

   Fonte: Dante de Laytano, Guia Histórico de Rio Pardo.

 

SEBASTIÃO BARRETO PEREIRA PINTO

 

Foi em Porto Alegre, no ano de 1780, onde também faleceu no ano de 1841, que nasceu Sebastião Barreto. Filho do Ten-Cel. Francisco Barreto Pereira Pinto e de Eulália Joaquina de Oliveira, neto paterno do Cel. Francisco Barreto Pereira Pinto1 e de Francisca Veloza da Fontoura. Esta 1ª filha de JCF. Sebastião Barreto teve 10 irmãos. Casou com Matilde Clara de Oliveira em 1805, na vila de Rio Pardo, havendo três descendentes do casal.

A vida de Sebastião Barreto Pereira Pinto esteve ligada à atividade militar, onde atingiu o posto de Marechal-de-Campo, em 1839. Jovem, aos 13 anos, ingressou no Regimento de Dragões de Rio Pardo comandado por Patrício José Corrêa Câmara. Participou com destaque da campanha de 1801, que resultou na conquista definitiva dos 7 Povos das Missões. Até ser promovido a sargento-mor, em 1813, serviu como tenente e capitão nas guarnições da Fronteira. Como tenente-coronel e coronel serviu na Cisplatina. Em 1822, subordinado ao Tenente-general Lecor, foi promovido a brigadeiro, tendo exercido o governo da praça de Montevidéu e, logo depois, assumiu o comando das Armas do Rio Grande do Sul. Sua maior decepção militar aconteceu quando, viajando em campanha, estava em Livramento, recebeu a notícia da sua suspensão do Comando das Armas, um ato admissível se isso não tivesse resultado no abandono pela maioria de seus comandados. Substituído por Barbacena, assumiu o comando da 1ª Divisão, com a qual bateu-se, a 20-02-1827, na batalha do Passo do Rosário (rio Santa Maria), Ituzaigó para os argentinos2. Memoráveis feitos o distinguiram nas campanhas da Cisplatina de 1811 e 1812, 1816 a 1820 e ainda 1825 a 1828. Fiel ainda aos Imperiais, quando da Revolução Farroupilha, em 1838, durante a tomada de Rio Pardo, a 30 de abril, pelos revolucionários, foi batido.

Comendador da Imperial Ordem Militar de São Bento d’Avis e Dignitário da Imperial Ordem Militar do Cruzeiro do Sul. Em 1840, depois de passar pelo Rio de Janeiro, foi nomeado Presidente da Província de Minas Gerais, mostrando também apreciável conduta administrativa. Também foi comandante das Armas da Província de Pernambuco.

 

  

 

 

 

1    O Cel. Francisco foi um dos primeiros habitantes do Rio Grande do Sul, aqui chegando com a expedição de fevereiro de 1727. Homem de confiança de Silva Paes, acompanhou-o na incursão que desbravou a região das lagoas Mirim e Mangueira até o Taim, lá implantando importante posto militar que foi decisivo na conquista do território. Ingressou no Regimento de Dragões ainda nas Minas Gerais, em 1736. Consta ainda ter recebido ordens para assumir o comando do Regimento de Rio Pardo, após muitos outros feitos que o distinguiram como bravo estrategista militar.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

    Essa batalha, muito embora com destaque a bravura do Gen. Sebastião Barreto e de seus comandados, consta famosa nos registros da História Militar, da época, especialmente pela indecisão de ambos os contendores. Vencidos os brasileiros, que bateram em retirada em meio ao fogo ateado pelo inimigo; vencedores os argentinos, porém sem conquista de qualquer espécie e exauridos retornariam depois a suas bases. A Banda Oriental, Cisplatina para os brasileiros, estava no centro da luta, no ano seguinte, em agosto obteria sua independência política, um tratado sob o signo inglês, que necessitava da paz para favorecer sua política mercantil.

 

FAMÍLIAS INTERLIGADAS

 

Azambuja

Charão

Corrêa Câmara

Freire

Menna Barreto

Palmeiro Da Fontoura

Pereira Pinto

Simões Lopes

Simões Pires

...

 

 bRASaMOREIRAA amoreira lembra  à época da política visando à povoação do Reino Luzo, Século XIII, quando distribuíram-se senhorios, mediante títulos nobiliárquicos. A consciência de municipalismo induzia à cidadania em contrapartida ao feudalismo europeu. Os da "Fonte Áurea", já miscigenados aos Mouton, assim, talvez tenham se assentado em Chaves, Norte de Portugal, próximo as Astúrias, onde plantando amoreiras poderiam nelas cultivar o bicho-da-seda. Os Mouros já tinham sido banidos do território.

 OS SIMÕES PIRES

 

Matheus Simões Pires, conforme Aurélio Porto, é um dos primeiros povoadores de Rio Pardo. chegou ao Continente de São Pedro procedente de Santa Catarina pouco antes de 1765. Revela ainda esse autor, que Matheus antes teria passado pela Colônia do Sacramento e de lá, depois de investida de Miguel Vertys y Salcedo, em 1763, como outros de seus compatriotas, forçados a retirarem-se, foram para Rio Grande ou Santa Catarina. Essa hipótese, levantada por Aurélio Porto, decorre de sua primogênita, Vicência Joaquina, nascida em 1763, é natural do Desterro - SC. O fato de Matheus Simões Pires ter uma irmã, Luciana, casada e falecida na Colônia do Sacramento pode indicar a passagem dessa família de açoritas por essa região então dominada pelos portugueses.

 Casou o patriarca dos Simões Pires com Catharina Ignácia da Purificação, ambos naturais de São Miguel, Ilha Terceira, Açores. Além de Vicência Joaquina, Antônio Vicente, o segundo filho, casou com Maria do Carmo Violanta (te) de Queiroz e Vasconcelos. Esta bisneta de JCF, seguindo Maria Eulália Pereira Pinto e Francisca Veloza da Fontoura.

 Consta que toda a progênie de Matheus passa por Antônio, único filho com geração. Uma vasta e importante geração que se localizou em Rio Pardo, inicialmente, depois Encruzilhada, São Sepé, Bagé e Dom Pedrito. A interligação com os Fontoura é muito acentuada nas duas últimas localidades.

 Maria do Carmo e Antônio Simões Pires, depois, com a conquista das Missões, juntamente com seus filhos vão para o Alegrete, Bagé e Dom Pedrito. Nesta duas últimas localidades decorre do assentamento de Antônio Simões Pires da Fontoura, este filho de Alexandre Simões Pires e de Clara Regina da Fontoura. Os descendentes dos Carneiro da Fontoura nestas paragens se deram por Pedro José  - da qual é filha Clara Regina -, quando assentou-se na costa ocidental do rio Santa Maria (Dom Pedrito), após 1811 e ainda em Palmas, rio da bacia do Camaquã em território de Bagé.

 

  
(Sequência de Famílias Interligadas inconclusa)  
 

 

 

 

 

 

 

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Tremula a liberdade, a ordem natural das coisas é plena e exitosa; é tempo de recuperar as energias para novas ações que, por certo, teimarão em perturbar a harmonia com denodo conquistada, assim, atilado, repousa o combatente.

 

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